terça-feira, 29 de julho de 2014

Morde o lábio para não trincar os dedos durante a evasão. Foge sem assinar a rendição até porque a guerra nem chegou a ser declarada. Capitular perante certos invasores traz por vezes mais graças e prazeres do que vãos triunfos plenos de orgulho mas com grandes baixas para ambos os lados.
Rufam os tambores. A cena desenrola-se em câmara lenta mas não há espectadores. Ninguém ouve a banda sonora e pesam-se os prós e os contras. Puxará dos galões o vencedor ou deixará cair por terra o ímpio uniforme?
Negoceiam-se as condições e acertam-se os termos. Um à frente e o outro atrás, um por cima e o outro por baixo sem que se cruzem os olhares. Desfraldado o estandarte, exibe-se com orgulho o pendão de quem hesita em afirmar-se vencedor.
O vencido sente-se praticamente um mero assistente, suado e usado; um participante passivo, um vulgar figurante num filme que ninguém confessa ter escrito. Não há quem compre bilhete, quem pense no intervalo ou pergunte onde fica a casa de banho.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Descalço e sem açúcar, deixara para trás os campos de algodão e os outros, os que lá ficaram. Correu para o Sol pensando na Luísa e na Ana, vendidas aos americanos por outros piratas e mercenários de colarinho branco (opcional). Nem reparou em Papa Legba que, enquanto passeava os cães, o olhou de soslaio.
 
Deixou de procurar álibi ao ver que outros olhares furtivos e dissimulados naquela encruzilhada vitimavam também Vera que vinha do Sol vestida de verde voltando para si todas as atenções. As asas de cera não derreteram mas foram cortadas pelo vislumbre de uma gota que lhe desceu pela coxa brilhando imparável até morrer no tornozelo.
 
Calçavam a berma da estrada cabeças que falavam pelas costas de quem passava quando não havia ninguém a ver, imunes ao pó levantado pelos incautos que com pouca discrição por ali se aventuravam. As palavras que com atenção se ouviam eram alfinetes no coração de quem as não devia ouvir.
 
Rouge o Baton da boneca que passa despercebida e fica esquecida numa esquina qualquer que por estes lados se repetirá vezes sem conta. Ruge quem pode, antes que o som seja abafado pelo barulho branco que consome tudo o que não é estático.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Passa-se a vida à espera, umas vezes com senha, outra vezes sem senha. Procura-se não olhar muito para o relógio nem para o tamanho da bicha. Umas vezes a espera é à direita, outras vezes a espera é à esquerda. Os ingleses não acreditam que conduzem do lado errado da estrada.

Dos cães e do que deles se espera? Apoiados em quatro patas, narizes frios e molhados, orelhas e olhos atentos, com uma cauda a servir de intérprete para as emoções. Keep calm and carry on. Os cães não foram feitos para voar.

A ruiva afinal é loura. Olha para mim como se fossemos amigos desde sempre. Não há reservas nem restrições. O lugar está marcado e não se aceitam devoluções. Correria para ficar ao meu lado se tal fosse preciso.

Não há escalas. As escadas não rolam e estão fora de serviço. O chão foi encerado e o pessoal espera por aviões que não sei bem para onde vão. O controlo é excessivo e eu nem saí do fuso do meridiano...só pode ser maldição de alguma bruxa verde.

terça-feira, 30 de abril de 2013

Era um local escuro e oco onde a pouca luz que filtrava parecia parar nas curvas para pedir indicações ao fumo que por ali morava perdendo-se de seguida nos olhos de todos os clientes habituais. A noite era especial e na plateia encontravam-se o filho de Deus, seus apóstolos e irmãos; todos bebiam com disciplina e em silêncio à espera do início do espectáculo.

Parker, improvisando o impossível, precisava de apoio para não se afastar do microfone enquanto soprava no saxofone de plástico. Alguém exclamou: "Olha o passarinho!" e a baronesa, que passava naquele instante, olhou por cima do ombro.

Monk tirou o chapéu e sentou-se ao piano depois de mais uma pausa para dançar. Atrás da cortina Coltrane abotoava a camisa imaginando um comboio que o levava para longe de navios que partem e naufragam.

Mingus, desalojado, arrancava sons às cordas em tensão e todos se sentiam intimidados enquanto procuravam documentar a ocasião.

sábado, 6 de abril de 2013

Selva urbana iluminada por ovnis e uivam lobisomens sem lua. O colarinho manchado dos vampiros não passa despercebido ao distinto canino que chupa o essencial.
 
São ruivas na aparência. Aparecem sempre as ruivas. De noite todos os gatos são pardos e as ruivas não; trincam lábios e bebem cocktails cor de sangue enquanto escorrem dedos finos por pescoços pálidos.
 
Rezam as lendas que as rendas levam a melhor mas os baixos vibram e a luz treme em locais cheios que transpiram o calor. O horror, o horror.
 
A conta em balas de prata e dentes de alho, semáforos intermitentes e a jugular pela vista está morta.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

© 1980 - Alice Cooper - Flush The Fashion -
 
Em 1980 Alice poderá ter caído na toca do coelho ou atravessado para o outro lado do espelho mas não terá sido por correr atrás de um coelho branco nem por atraso.

Talvez esta Alice não seja essa Alice e por isso talvez isto não seja um chá de loucos nem haja motivo para que se cortem cabeças.
 
Fala, fala e diz que somos todos clones; fala da dor, do medo do mundo real e da cura para esse e para outros males; fala de infecções e de outros factos sinistros. Esta Alice demente fala-nos da dança da morte e de títulos nos jornais.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Parece-me o hemisfério errado e o avesso do meu mundo virado ao contrário.
 
Se fosse ave seria rara e boa mas não voa nem sabe quanto destoa enquanto os mais atentos ficam à toa.
 
Com pena a corda estica e se partir pouco fica.
 
Perco o Norte e sinto a morte porque imper-a-dor.