sexta-feira, 26 de maio de 2006

Tempo: irreversível, talvez indefinível; a sua existência obriga a existência a mudar, permanecendo imutável. É grave a gravidade ajudada pelo Tempo que nunca está do nosso lado mas acima de nós, pesando. Talvez por isso...

Il faut être toujours ivre. Tout est là: c'est l'unique question. Pour ne pas sentir l'horrible fardeau du Temps qui brise vos épaules et vous penche vers la terre, il faut vous enivrer sans trêve.*

Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar-vos sem tréguas.**

*Charles Baudelaire, Petits Poèmes en Prose, 1869. **Tradução de José Saramago.

quarta-feira, 24 de maio de 2006

Montaigne: Nome de lugar adoptado por Michel Eyquem, autor dos “Ensaios”. Montaigne é, ainda hoje, um pequeno lugar que se situa no Périgord, poucos quilómetros a Este de Bordéus. E neste pequeno lugar, hoje dito “Saint-Michel de Montaigne”, podemos ainda ver o castelo de Michel Eyquem e a torre onde este escreveu a sua obra.

Não sou grande adepto de peregrinações, se falarmos no sentido mais religioso do termo, mas gosto de visitar lugares onde viveram pessoas que frequento em livros e noutros documentos. A minha visita a Montaigne pouco teve de semelhante a uma ida a Fátima porque por promessa irei apenas à Austrália: “não morro sem lá ir!”.

A Montaigne fui de carro, e ainda durante o Inverno passado. Parti à noite em direcção a Norte e antes de amanhecer já estava preso numa serra galega com as estradas cortadas pela neve. O Sol nasceu e fiz-me de novo à estrada. Antes do Sol se pôr já estava em Bordéus. No dia seguinte fui ao pequeno lugar de “Saint-Michel de Montaigne”.

Sítio pacato. Não direi que o lugar ficou parado no tempo porque tal seria um “lugar comum” e Montaigne nada tem de comum. Visitei o castelo e estive na torre onde séculos antes Michel escreveu os seus “Ensaios”. Por prazer, num lugar agradável como aquele, exercício de autognose parece quase inevitável.

terça-feira, 23 de maio de 2006

Detestável: Detesto gente. Detesto multidões. Detesto esperar. Detesto andar de autocarro. Detesto voar. Detesto as refeições que servem nos aviões.

Antes das companhias aéreas “low cost”, voar implicava ir-se de autocarro até ao pássaro de ferro onde se tinha lugar marcado; agora vai-se a pé para o avião e nem se tem lugar marcado. No fundo, o “low cost” implica a eliminação dos “luxos” supérfluos. Daí que também não sirvam qualquer refeição gratuita durante o vôo. Mas eu detesto andar de autocarro e...será que alguém gosta realmente das refeições servidas a bordo dos aviões? As companhias aéreas “low cost” eliminaram “luxos” ou torturas?

Claro que não ter lugar marcado num avião é diferente. Detesto voar. Detesto não ter lugar marcado quando vôo. Nas companhias aéreas “low cost” a tortura é psicológica: Não vou para o avião de autocarro, mas quando lá chegar, sem música vou jogar o jogo da cadeira para encontrar o meu lugar. Não me vão servir uma refeição gratuita mas vão tentar vender-me uma; pagar por uma refeição assim faz-me pensar na fome em África.

Detesto voar. E não salto de pára-quedas porque tenho como objectivo terminar a minha vida com igual número de descolagens e aterragens.

segunda-feira, 15 de maio de 2006

Existe em nós uma natural tendência para a autodestruição. Pior, tendemos naturalmente para uma existência penosa. Talvez este seja um factor atenuante para a nossa natureza autodestrutiva. Mas esta tendência não é de fácil explicação. As evidências apontam para uma incapacidade inata para discernir entre o essencial e o acessório; esta incapacidade encontra-se aliada a uma evidente (e inacreditável) segurança nos juízos.

As crias (ditas “bebés”), tal como nós quando o éramos, assumem comportamentos que os adultos consideram estranhos; os adultos riem e desculpam (acreditando que realmente devem desculpar) tais comportamentos e erros de juízo, quando, por exemplo, as crias dão mais atenção ao papel de embrulho do que ao patinho de borracha que vinha embrulhado. Não é sequer contemplada a hipótese de que realmente o embrulho é mais interessante do que o patinho de borracha. Note-se que no que respeita a novidade, o patinho de borracha não tem qualquer vantagem sobre o papel de embrulho. Acredito que se o patinho não fosse de borracha, e fosse sim um patinho verdadeiro, com vida, a coisa seria diferente. A cria aparentemente opta pelo acessório. Mas, dada a possibilidade, a cria opta pela vida...certo?

A cria cresce; luas e marés vão passando. E a cria deixa de ser cria. Dilui-se num mar de gente. É social. E agora escolhe o patinho de borracha. O patinho de borracha é essencial; o papel de embrulho é acessório. Não admite, no entanto, desprezar a vida. Mas a vida já não é vivida com gozo. O gozo na vida perdeu-se com o aparecimento da responsabilidade. E longe vão os tempos em que o papel de embrulho nos fazia feliz. Agora queremos, pelo menos, o patinho de borracha que todos têm; se conseguirmos um outro, um que ainda ninguém tem, melhor!

O patinho de borracha não tem pena; nem da nossa vida penosa, cheia de acessórios e cada vez mais distante de tudo o que é essencial.

domingo, 7 de maio de 2006

No princípio era o nada. Depois Deus criou o Universo. Não satisfeito, não descansou sem antes criar o Homem. A mulher veio depois; já em clara fase de pouca inspiração, foi de uma costela de Adão que Deus a criou. Seguiu-se o que todos sabemos. E como nenhum efeito nasce sem causa (nem mesmo os especiais), causas não faltaram nos tempos que se seguiram: assim apareceu o pecado original e o fruto desse pecado, o aborto e o bloco de esquerda, a coca-cola e as armas de destruição maciça, os agrafos e os vendedores de bíblias, as perversões e os depravados, os crentes e os outros, etc. e tal.

Mais tarde, um novo princípio; um novo Universo. Desta vez foi o Homem quem o criou. O novo Universo é virtual mas em tudo procura imitar o real. Das maiores evidências aos mais pequenos detalhes, o virtual vai relegando o real para segundo plano e, para gerações futuras, o real e o virtual poderão substituir o ovo e a galinha e...será que vão saber com quê se fazem omeletas?

Agora também eu aderi ao virtual. Pelo menos no que respeita à “bloguice”: Blog, ou versão económica de “weblog” que adapta do real aquilo que outrora designava um registo de entradas, um diário de bordo ou coisa semelhante. Fosse o meu blog um diário de bordo, e estaria eu à espera de um iceberg que me afundasse para fazer dele motivo de interesse. Sendo o virtual diferente do real, o termo “blog” abastardou-se e, para os que não serão capazes de fazer omeletas, o blog será como um instrumento de exibicionismo. Todos, mesmo aqueles que nada têm para dizer e aqueles que poderão ter algo para dizer mas ninguém que o queira ouvir, podem gratuitamente exibir-se neste mundo virtual.

Eu quero apenas que sejam bem-vindos, aonde quer que estejam, todos os mirones que espreitem este blog, mas desde já vos aviso: aqui nada encontrarão que tenha sido escrito só para vocês; tudo será escrito POR e raramente PARA. Se algum dia alguém testar a minha fraca memória e me perguntar “onde estava no dia 25 de Abril?”, talvez este blog seja de alguma utilidade. Até lá serei um exibicionista; vocês serão mirones. Os vossos comentários, caso os haja, serão o princípio da mudança...ou não...