segunda-feira, 15 de maio de 2006

Existe em nós uma natural tendência para a autodestruição. Pior, tendemos naturalmente para uma existência penosa. Talvez este seja um factor atenuante para a nossa natureza autodestrutiva. Mas esta tendência não é de fácil explicação. As evidências apontam para uma incapacidade inata para discernir entre o essencial e o acessório; esta incapacidade encontra-se aliada a uma evidente (e inacreditável) segurança nos juízos.

As crias (ditas “bebés”), tal como nós quando o éramos, assumem comportamentos que os adultos consideram estranhos; os adultos riem e desculpam (acreditando que realmente devem desculpar) tais comportamentos e erros de juízo, quando, por exemplo, as crias dão mais atenção ao papel de embrulho do que ao patinho de borracha que vinha embrulhado. Não é sequer contemplada a hipótese de que realmente o embrulho é mais interessante do que o patinho de borracha. Note-se que no que respeita a novidade, o patinho de borracha não tem qualquer vantagem sobre o papel de embrulho. Acredito que se o patinho não fosse de borracha, e fosse sim um patinho verdadeiro, com vida, a coisa seria diferente. A cria aparentemente opta pelo acessório. Mas, dada a possibilidade, a cria opta pela vida...certo?

A cria cresce; luas e marés vão passando. E a cria deixa de ser cria. Dilui-se num mar de gente. É social. E agora escolhe o patinho de borracha. O patinho de borracha é essencial; o papel de embrulho é acessório. Não admite, no entanto, desprezar a vida. Mas a vida já não é vivida com gozo. O gozo na vida perdeu-se com o aparecimento da responsabilidade. E longe vão os tempos em que o papel de embrulho nos fazia feliz. Agora queremos, pelo menos, o patinho de borracha que todos têm; se conseguirmos um outro, um que ainda ninguém tem, melhor!

O patinho de borracha não tem pena; nem da nossa vida penosa, cheia de acessórios e cada vez mais distante de tudo o que é essencial.

3 comentários:

nés disse...

O texto até era bonito... tinha a sua graça... quer dizer, um bocadito... pronto, nao tinha graça nenhuma.

Agora a sério, só não concordo com a ligação à autodestruição, mas de resto, se quiseres ser o meu papel de embrulho eu posso ser a tua cria ;)

Júlio disse...

Agora, fizeste-me lembrar daqueles tempos em que escrevias aqueles ensaios que depois enviavas por mail ao pessoal. Bons tempos em que a nossa existência não era tão penosa. A Nés não tem razão, nós somos seres realmente talhados para a auto-destruição; é-nos inerente a frustração de querermos sempre aquilo que nunca vamos conseguir, e que mais tarde ou mais cedo, se revela em algo supérfluo, logo, acessório!!! Um abraço.

Gilda disse...

Creio que existe um equívoco na tua opinião entre essencial e acessório..(sempre diferimos neste ponto não?) Sim, porque as crias, como tu lhes chamas, dão muito mais importância ao patinho,tanto é que a ânsia por chegar até ele faz com que do papel de embrulho só restem pedaços..Quando crescemos passamos a ligar muito mais às aparências e por vezes nem queremos saber do que se encontra por baixo do papel tão bonito..talvez se tiver um peso considerável ainda valha a pena abrir. Caso contrário, que venha o proximo!