domingo, 25 de junho de 2006

Modernices. Ser moderno é desprezar conservadorismos; as regras são abolidas para dar lugar à excepcional excepção. O passado não deixa saudade porque não se pensa (no presente); corre-se (para o futuro). Há uma procura pela impressão e por impressionar impressionantemente. Pleonasmos são in, excepto os clássicos que são out. Ida a passividade activa, prima a actividade passiva.

No mundo moderno não morremos. No mundo moderno não há funerais. No mundo moderno há upgrades. No nosso mundo há substituições. Hoje há falta de memória. A moda surge hoje onde aqueles que eram mortais tinham valores morais. Ética perde para Estética. De que vale a moral perante a moda afinal?

O primeiro homem foi imortal até ao dia da sua morte; então morreu, e essa morte fez de todos nós mortais. Não seríamos mortais se ninguém tivesse morrido antes! No mundo que antecedeu o mundo moderno morria-se. No mundo que antecedeu o moderno havia funerais. No mundo que antecedeu o moderno éramos insubstituíveis. Esse era um mundo cinzento e fora de moda: completamente out!

Perca-se a memória para se atingir a imortalidade. Todas as regras subsistem até aparecer qualquer excepcional excepção. Nós somos excepcionalmente excepcionais; somos a excepção.

sexta-feira, 23 de junho de 2006

A rosa-dos-ventos já não indica qualquer rumo porque há muito perdeu as pétalas. Restam apenas espinhos que, não indicando um rumo específico, fazem com que todos eles pareçam difíceis e tortuosos.

Vogando vagamente nas vagas em voga, segurando o leme, à procura de bons ventos que levem a bom porto; a bordo, enquanto o vento sopra ora de bombordo ora de estibordo, controlando o casco, curando a quilha da popa até à proa, sem nunca dar à ré.

Senhor do destino não acredita nem no seu nem no de ninguém. A vida é o que dela faz e o que dela é feita... E o que é feito dela?! Boa fortuna traz a ilusão de controlo que se revela traidora, ameaça afundar e prenuncia naufragar.

Sem rumo e sem rum, sem rato e sem rolha, sem corda e sem bóia, sem destino ou descanso, aguenta a violência de tudo menos a do mar.

segunda-feira, 19 de junho de 2006

O nacionalismo é um fenómeno problemático na sociedade actual. Não se caia, no entanto, no erro de confundir o nacionalismo de hoje com fenómenos de tempos idos, fruto de uma qualquer espécie de revivalismo.

Hoje, o nacionalismo é uma ocupação dos tempos livres como outra qualquer. A opção por esta ocupação não exige grande investimento económico: hoje podemos vestir as cores da bandeira pelo preço da chuva, graças à campanha do Hipermercado do Tio Belmiro. Desembolsando quantia idêntica à necessária para que se bebam dois cimbalinos, podemos vestir uma camisola com os símbolos nacionais; e por quantia idêntica à necessária para que se coma uma francesinha e se beba um fino, podemos vestir uma réplica da camisola a que Eusébio limpou as lágrimas no mundial de futebol de 1966.

O fácil acesso da plebe aos símbolos nacionais provocou o incumprimento de muitas regras implícitas ao uso de tais símbolos; a plebe não respeita os símbolos nacionais, a plebe é ignorante; a plebe desconhece que no Artigo 10.º das regras que regem o uso da Bandeira Nacional, é expressamente proibido o uso decorativo da mesma, a plebe é ignorante; a plebe nem a letra do Hino sabe, a plebe é ignorante. A plebe é nacionalista porque a selecção nacional de futebol precisa do apoio de todos, a plebe é ignorante. A plebe reprova o nacionalismo da extrema-direita, a extrema-direita é plebe como a plebe.

Os Poderes, ainda que separados, são plebe em Portugal. Homicídio cometido pela extrema-direita é julgado como genocídio porque a cor da pele ainda importa. Plebe: gente pequena de pequenez moral que é o cancro de um país pequeno contaminado pela ambiguidade. A plebe do país laico, sendo maioritariamente composta por Católicos Romanos, reza a todos os santos para que a nossa selecção vença na Alemanha. E a moda, ainda que passageira, não deixa o condutor escolher o caminho; a bandeira vai perdendo cor, hasteada invertida e inadvertidamente.

segunda-feira, 12 de junho de 2006

Demasiado livresco. Lucubrações que dificilmente se percebem, dada a forma enigmática sob a qual se apresentam, minam este espaço. Presunçoso, vaidoso, pretensioso e...insolente. Banais trivialidades, incompreensíveis e dominadas pela arrogância irritante do excessivo uso de palavras caras. Haja paciência; haja dicionário!

Não creio, contudo, que se trate de um intencional exercício de virtuosismo. Não se trata, afinal, de uma representação de Cristo em perspectiva; nem do desenho de uma circunferência perfeita. É muito simplesmente um irónico aproveitamento deste espaço, para o exibicionismo que visa satirizar.

Aos mirones cabe a árdua tarefa de filtragem das palavras caras que atulham os textos, para que estes se tornem compreensíveis ou, muito simplesmente, desapareçam por completo. Por isso, talvez virtuosos sejam aqueles que consomem o exibicionismo deste mundo virtual.

No mundo real, Ângelo Alves é autor de Prolegómenos a uma Ontologia Pluridimensional: dialética, ascensional, plenificante. Este volume da Imprensa Nacional da Casa da Moeda tem um custo para todos os curiosos que não fiquem já satisfeitos com a leitura do título; Sem qualquer intenção de denegrir Ângelo Alves, a sua obra (da qual conheço apenas o título e não o seu conteúdo), ou a Imprensa Nacional da Casa da Moeda, neste espaço é oferecida semelhante excitação para a cada vez mais popular masturbação intelectual...grátis!

sexta-feira, 9 de junho de 2006

Fosse eu um poeta ou um romântico incurável versado em versar, e elevaria o assunto que pretendo tratar a uma superior composição poética digna de ser cantada por um lírico qualquer: Ode ao Pé.

Pé: é o nosso fundamento físico. Os intelectuais perdem-se na demanda do fundamento metafísico que sustente a nossa existência; lançam-se em discussões num mar revolto de ideias revoltosas onde ninguém tem pé. Por isso, ou talvez não, reivindico a importância do pé. Um, ou dois, bem assentes no terra, seriam fundamento mais do que suficiente para uma existência sustentada.

Mas a nossa é uma existência insustentável, independentemente de tudo o que a sustenta. Bem vistas as coisas, pé ante pé, vamo-nos aproximando de tudo o que desconhecemos e, ao pé de onde já não temos pé, afundamos.

Vá pelos seus dedos do metatarso ao tarso mas não seja digitígrado; seja plantígrado e não admita a fotossíntese da planta do seu pé.

quinta-feira, 8 de junho de 2006

Alienígena: Acreditar que não estamos sós, para que não acreditemos estar sós com tantos como nós. Deus: Acreditar que a nossa perfeição teve origem numa ainda mais perfeita, para que haja uma causa e não sejamos um defeito. Enfim...acreditar!

Em Deus não acredito; não saberia que forma dar-lhe. O antropomorfismo divino parece-me ignóbil. Acredito mais facilmente em alienígenas; seres esbeltos e cabeçudos, vindos de outras dimensões. Só assim a nossa existência não provoca qualquer eco no universo.

O alienígena é ente para nos visitar a meio da noite e muito mais. É até ente suficiente para nos implantar chips no crânio e para nos usar como cobaia em experiências que não somos capazes de entender.

Acreditar que acreditamos para que acreditemos ser possível acreditar. Há dúvidas? Acredito...

sábado, 3 de junho de 2006

Uma questão de equilíbrio. Na vida o que realmente parece importar é o resultado do confronto de forças contrárias. A própria vida surge associada ao seu contrário: a morte. E na vida o equilíbrio é ditado pela balança que procura a equidade das forças contrárias que nos seus pratos se identificam e se confundem numa justa medida.

Sob a balança vivemos como num quadro de Monet, saltando de nenúfar em nenúfar, procurando o tal equilíbrio que não perturbe a ordem natural das coisas. Impressionista ou até mesmo impressionante: só notamos o vento se este estiver contra nós; se soprar a nosso favor, talvez digamos que não existe. E, da mesma forma, enquanto saltamos de nenúfar em nenúfar, notamos mais facilmente tudo aquilo que nos dificulta a tarefa.

Invariavelmente acabaremos entre os nenúfares, caídos num lago que deverá ter assumido proporções oceânicas, como o casco de um velho navio abandonado. As cores do quadro de Monet diluíram-se entretanto; esbatidos e abatidos, apodrecemos à deriva.

A ordem natural das coisas, sob o signo do equilíbrio, implica que sejamos substituídos por existências de valor: verdadeiras, belas e boas. Durante a vida perdemos valor? Verdade? Beleza? Bondade? É uma questão de equilíbrio.