segunda-feira, 19 de junho de 2006

O nacionalismo é um fenómeno problemático na sociedade actual. Não se caia, no entanto, no erro de confundir o nacionalismo de hoje com fenómenos de tempos idos, fruto de uma qualquer espécie de revivalismo.

Hoje, o nacionalismo é uma ocupação dos tempos livres como outra qualquer. A opção por esta ocupação não exige grande investimento económico: hoje podemos vestir as cores da bandeira pelo preço da chuva, graças à campanha do Hipermercado do Tio Belmiro. Desembolsando quantia idêntica à necessária para que se bebam dois cimbalinos, podemos vestir uma camisola com os símbolos nacionais; e por quantia idêntica à necessária para que se coma uma francesinha e se beba um fino, podemos vestir uma réplica da camisola a que Eusébio limpou as lágrimas no mundial de futebol de 1966.

O fácil acesso da plebe aos símbolos nacionais provocou o incumprimento de muitas regras implícitas ao uso de tais símbolos; a plebe não respeita os símbolos nacionais, a plebe é ignorante; a plebe desconhece que no Artigo 10.º das regras que regem o uso da Bandeira Nacional, é expressamente proibido o uso decorativo da mesma, a plebe é ignorante; a plebe nem a letra do Hino sabe, a plebe é ignorante. A plebe é nacionalista porque a selecção nacional de futebol precisa do apoio de todos, a plebe é ignorante. A plebe reprova o nacionalismo da extrema-direita, a extrema-direita é plebe como a plebe.

Os Poderes, ainda que separados, são plebe em Portugal. Homicídio cometido pela extrema-direita é julgado como genocídio porque a cor da pele ainda importa. Plebe: gente pequena de pequenez moral que é o cancro de um país pequeno contaminado pela ambiguidade. A plebe do país laico, sendo maioritariamente composta por Católicos Romanos, reza a todos os santos para que a nossa selecção vença na Alemanha. E a moda, ainda que passageira, não deixa o condutor escolher o caminho; a bandeira vai perdendo cor, hasteada invertida e inadvertidamente.

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