domingo, 30 de julho de 2006

É irrelevante o relevo da sociedade neste mundo global. Pressupõe-se que a origem dos indivíduos seja a mesma mas eu sou filho único, e de onde vim não veio mais ninguém; sou um indivíduo individual, entenda-se.

Animal? Sim. Social? Nem por isso. Sociável? Saciável! Porque “sociável” é status; e “saciável” é predisposição para a realização individual. Uma vez saciado surge a satisfação; pelo que se conseguiu no passado e por tudo o que conseguirá no futuro. A satisfação pessoal depende, portanto, do sucesso da predisposição natural do animal pouco social e saciável.

Sem classe nem ordem, com classe para não obedecer à desordem, faço e não sigo para que sigam e façam aquilo que acredito que deva ser seguido e feito. Anarquista avesso à sociedade? Nada disso! A liberdade individual não é limitada tão facilmente; a individualidade individual é adepta de regras que protejam o seu espaço e a sua liberdade. Mas a sociedade tal qual a conhecemos está do avesso, pronta para ser lavada, centrifugada e pendurada numa corda.

A sociedade de classes, outrora dividida em alta, média e baixa, é hoje dividida em “aqueles que limpam o cu com folha dupla”, “aqueles que limpam o cu com folha simples” e “aqueles que limpam o cu aos dedos”.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Há pão? – ouve-se perguntar durante um passeio na Baker Street, sem se ouvir qualquer resposta. Em frente ao 221b da mesma rua evita-se um “elementar, meu caro Watson” porque, isso sim, seria fictício. Alguém, algum dia, leu tal coisa nos livros? Por que raio tal frase se colou à criação de Sir Arthur Conan Doyle?

Watson: Dr. John Hamish Watson, companheiro de aventuras de Sherlock Holmes. Sem alguma vez ouvir tal “elementar...”, ouviu certamente o som do violino do famoso detective que na cocaína encontrava a inspiração; inspirava-se, inspirava-se...e inspirava-se!

Elementar; simples; mas sempre subjectivo. Aquém ou além, sempre defeituoso ou excessivo. O carácter subjectivo da subjectividade inerente à condição de sujeito, sujeita à sujeição. O melhor mesmo é pedir um refresco de limão. Há pão?

Comido o [pão] que o diabo amassou, olha-se em frente para se ver o horizonte fugir. Ténue linha que não se cansa, não se quebra, não se torce; dividindo o aquém do além assegura a condição defeituosa do sujeito excessivo.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Afinidades que desafinam: O elefante mereceria mais respeito; deveria até ser alvo de admiração e inveja pela dimensão! Sem grande esforço observamos que perante a probóscide do gigantesco paquiderme, em nós nada encontramos que não nos assemelhe mais a um reles insecto díptero: ignorem-se os números para evitar o embaraço; não deve sequer ser usada a mesma escala para comparar grandeza(...s?). Almejemos então a algo exequível: a memória! Que bom seria ter memória idêntica à do paquiderme probóscideo.

Zonas há, no nosso país e alhures, onde hominídeos avessos à água (talvez porque, ao contrário do elefante, sejam maus nadadores), atingiram o estatuto de “paquiderme” dada a camada de cascão que os cobre por inteiro, os defende contra as agressões do meio, e vai também mantendo à distância todo e qualquer ser vivo com capacidades olfactivas. Ignorando a dimensão proboscídea, e tendo já conseguido um lugar honroso no restrito grupo dos paquidermes, os hominídeos procuram então adquirir memória semelhante àquela do animal que a cromática acusa cinzento.

Como resultado de tal esforço, o homínideo conclui que memória implica ter presente o passado. Surge assim o revivalismo que porém não identifica completamente presente com passado. Por exemplo: Antigamente o Mini tinha tal nome porque era o de um carro pequeno; o Volkswagen era o carro do povo porque Hitler desejava que fosse tão económico que o povo fosse capaz de o adquirir; e o Mercedes, que por norma era cinzento, era, também por norma, grande. Hoje o Mini é maior que alguns Mercedes, e o Volkswagen chega a custar mais do que alguns Mercedes.

Revivalismo é ter presente um passado defeituoso. No futuro a virtude consistirá em saber se o Mini era ou não mais pequeno do que um Mercedes, que então será um carro colorido por hominídeos cinzentos que nunca saberão porque raio alguém se lembrou de dar o nome de Volkswagen a um carro que poucos poderão ter. O Hitler era mesmo mau...por gozar assim com a gente!