terça-feira, 31 de outubro de 2006

A distância é curta e as barreiras inexistentes ou há muito ultrapassadas. Eles são como nós e nós somos como eles. A dita Generation X de escritores é irresponsável e, por isso, responsável pelo encurtar da tal distância e pelo fim de tais barreiras.

O escocês (orgulhoso de o ser) Irvine Welsh é um destes escritores; autor de “Trainspotting” e de diversas outras obras de ficção, menos conhecidas mas nem por isso menos interessantes, que teimam em descrever a nossa como uma sociedade decadente.

É curta também a distância entre a ficção e a realidade, e é pouco definida a barreira entre a realidade e a sátira. Onde começa e acaba a ironia? No fundo, os livros de Irvine Welsh são espelhos que nos reflectem também a nós, de uma forma mais ou menos distorcida; e, interessante é a ideia de não-evolução, aparentemente inerente às personagens, ou seja, ao nosso reflexo mais ou menos distorcido nas ficções. Não existe uma verdadeira evolução. A mudança não é novidade em absoluto mas mais do mesmo com aspecto diferente: lavou, ‘tá novo!

As personagens não estão limitadas a uma ficção e, como a nossa sociedade parece impor, são recicláveis, aparecendo em diversas obras do autor escocês. O mundo vai mudando, sem evoluir, as histórias vão-se cruzando e a ficção vai deixando de o ser.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Anoiteceu (desfez-se luz). O curioso que procurava uma agulha no palheiro acendeu um fósforo provando assim que a curiosidade pode ser uma actividade incendiária; o curioso, ele mesmo um verdadeiro incendiário, um pirómano piromaníaco, adepto fervoroso da piromania incendiária.

Curiosa a curiosidade, tão rara e preciosa característica que anima o desejo de satisfação do espírito e condiciona o corpo à sua vontade. Parece não ter fim o palheiro e a agulha não existir, mas a indiscrição, talvez maior que o palheiro, não deixa d’existir.

Brincando com o fogo aprendemos muito do que sabemos, e a brincadeira não terminará nunca porque o fogo matou o gato e só o gato. A nossa salvação é, no entanto, também uma maldição porque não podemos, mesmo querendo, deixar de brincar com o fogo. E talvez não se evitem alguns suplícios, mas serão sempre como fogo de palha e a curiosidade prevalecerá.

Dinamizando mente e corpo, reduzindo a cinzas tudo mais, a curiosidade é a combustão que terminará quando do corpo já não for dinâmico e estiver preparado, pela decrepitude da mente, também ele, para ser reduzido a cinzas. Venha a lume o natural lume de todos os que não serão senão vítimas desse lume que os consumirá até que nada mais do que cinzas deles reste. Amanheceu (fez-se luz).

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Ao fim do dia regresso a casa. Agora, novamente, na Via Bassini, que é uma rua nos subúrbios da grande cidade e cujo nome é o de um famoso cirurgião italiano do final do século XIX e do início do século XX. Edoardo Bassini é lembrado como autor do método usado ainda hoje (pelo que sei) na cirurgia da hérnia inguinal.

Nesta rua circulam, sempre cor-de-laranja por fora e de todas as cores por dentro, os transportes públicos milaneses que até são bastante pontuais, se levarmos em conta o facto de esta ser uma cidade caótica. O vermelho do semáforo passa a verde. Assim como algumas coisas demoram a mudar; outras, por sua vez, mudam constante e rapidamente. E ainda que a casa se torne lar, o lar transfere-se e a casa muda de lugar. Trata-se afinal de uma estrutura artificial que nos abriga e nos deixa ser. Sem ser para quem não queremos, pouco importa onde é.

Muda a chave no mesmo porta-chaves. Muda a porta. O recheio é, no entanto, menos sujeito a grandes oscilações e mudanças, tal como a música que ecoa entre as paredes ignorando a louça por lavar. Enche-se a casa de recordações para que esta não deixe de ser lar, mesmo que a louça continue sempre por lavar.

Pass(e)ando pela vida sem nunca se ter a certeza do destino, porque afinal não importa tanto assim o “para onde”, mas convém, no entanto, nunca esquecer a nossa origem. Porque pode sempre voltar-se ao ponto de partida; partir novamente e deixar que o destino seja outro. Sempre em casa.