segunda-feira, 21 de maio de 2007

Zappa

28 de Agosto de 1993 – 18 de Maio de 2007

Era preto. Quatro patas almofadadas e nariz de borracha. Duas orelhas grandes que dançavam com o vento quando corria ou quando não percebia o que ouvia. Um língua rosa que pingava e crescia com a sede e com o calor. Os olhos, que nem sempre se viam, brilhavam atrás de isolados pêlos brancos que denunciavam a direcção do seu olhar, mesmo quando fingia dormir de queixo pousado no chão. Fazia um som particular quando, de queixo pousado no chão, arranjava os bigodes com a língua. Adorava dormir e fazia-o nas posições e nos sítios mais estranhos. Quando sonhava entrava num mundo só dele e que nunca ninguém conheceu. Por vezes parecia correr porque mexia as patas, outras vezes parecia em perigo e aflito porque chorava enquanto abria os dedos com aquelas almofadas pretas e ásperas de tão gastas por corridas verdadeiras. Outras vezes, aqueles sonhos deviam fazê-lo regressar ao passado porque parecia mamar fazendo estalar a língua na boca entreaberta. Não gostava de estar sozinho e não gostava de ver as pessoas longe umas das outras. Farejava por baixo da porta do meu quarto para se certificar de que eu estava lá, e o bater das unhas no chão anunciava as suas mudanças de posição dentro de casa. Adorava coçar as costas na carpete da sala em momentos de alegria quase diários que o deixavam como um trapo com as orelhas viradas ao contrário e com o pêlo completamente desalinhado.

O Zappa era isto e muito mais. O Zappa era o meu cão. O Zappa morreu no dia 18 de Maio de 2007 com 13 anos de idade. O Zappa não sentirá a minha falta mas eu certamente sentirei a sua falta para sempre.

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quarta-feira, 16 de maio de 2007

São gotas que viajam no vidro da janela. Pesam, frias e verticais, sobre a direcção a seguir na superfície transparente: concordam e decididas vão descendo. O vidro nem comenta o sucedido com a janela fechada.

Ninguém se pergunta de onde vêm nem para onde vão; talvez apenas se outras hão-de vir. Espreitando pela cortina que não é de ferro, pasma-se com o que do outro lado se plasma, quem vê o que transpira sem querer e sem saber.

Raios! Deste lado nada se plasma e a luz não é muita. Impermeável o pensamento cristalino de que aquelas gotas nunca chegarão ao destino; perder-se-ão pelo caminho sem pedir indicações.

Tudo se passa lá fora. Cá dentro muito é diferente mas pouco transparece. Vá-se lá saber se alguém espreita. Plasme-se.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Morrer a morte certa talvez seja certo e indubitável até. Esse fim, constante e permanente, incondicional da nossa condição, oferece-nos o direito e o dever de expirar validamente completando o ciclo.

Ceifada foi-se a vida pela foice, interrompida extinguiu-se. Chega assim o fim de linha para todos os passageiros, que deixam vagos os seus lugares, sem que a idade lhes revele qual a doença da vida; velha como o tempo.

Cavado o fosso e revolvida a terra para cúmulo do túmulo onde descansará a ausência. Faz falta não fazer falta, não estar presente e ser apenas passado sem futuro.

Prece. Sem pressas perece-se, assim parece; e decompõe-se a matéria, consome-se a carne deixando os ossos ao ócio de um descanso eterno. Para sempre ou nunca mais.