domingo, 14 de fevereiro de 2010

Naquela noite fria e sem lua havia de tudo um pouco menos e escondia-se tudo atrás de nada. Um cigarro veio à janela e acendeu alguém sem filtro que expirava fumo e gritava a plenos pulmões: "Arde-me o cancro que me vai comendo o papel!".

Numa estrada, para lá dos gritos abafados pelo isolamento, do outro lado da solidão, reflectiam os faróis de um anel fora do dedo que vinha até fora de mão e também fora de tempo. Nunca é tarde para se saber se se chega a tempo. Fora por estar fora? Talvez fosse…

Travaram ao longe e fizeram fumo escondendo assim tudo o que a seguir se passou. Ergueram uma parede temporária que encobriu a conspiração. Meteram os corpos na mala e seguiram para outras paragens. Perdeu-se tempo e nada se encontrou.

O cigarro voltou para dentro e, quando se aconchegava no aperto do maço, ouviu o grito de pneus no asfalto que morreram de seguida sob aquele céu escuro do qual a lua havia fugido.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Não precisas de olhos para ver o vazio. O eco do silêncio é suficiente para abafar o ruído que te tem roído por dentro. Lembra-te que nunca ninguém se sente só; apenas se ressente (do passado no presente).

O hoje será apenas o ontem do amanhã, por isso pousa a cabeça por um instante e lembra-te que já morreste antes. Não vais esquecer quem foste nem vais conseguir voltar atrás até deixares de ser. Serás um dia esquecido por quem de ti não se irá lembrar e nunca te lembrarão aqueles que não te conheceram.

Não jogas em casa e as regras mudam constantemente. O resultado já foi decidido e não deves preocupar-te. Lembra-te que nada depende de ti; és livre de pensar que és livre (e podes iludir-te como quiseres).

O hoje será apenas o ontem do amanhã, por isso levanta a cabeça e pensa que nada acontece por acaso. Não és o dono do cavalo branco nem estacionas em segunda fila. Serás um dia lembrado por quem nunca foste.