quinta-feira, 11 de março de 2010


Calçava sapatos pretos e cruzava as pernas alimentando poses para uma fotografia que nunca seria. Poderia ter sido estrela de cinema com aquele sorriso vazio que derretia o gelo no copo e enchia o olhar.

Via-se ao longe, disfarçada de si mesma, enquanto fazia um filme sem guião. Chegara de avião e não era de cá. Tinha argumentos para roubar a cena e sabia bem que sabia bem. Escondia no bolso um lápis, uma chave e as evidências; por baixo das unhas sem verniz encontravam-se os vestígios da arrogância.

Entre um copo e outro, o lápis servia para escrever uma história sem início e a chave procurava as suas irmãs: faltavam seis e o final continuava fechado. Era tarde mas parecia ser cedo. Estava tudo a fechar mas permanecia tudo em aberto.

Piscava o olho à menina e bebia o sumo daquele fruto a que chamam imaginação. Inclinou a cabeça para baixo e quando levantou o olhar viu-a descruzar as pernas e os sapatos pretos puseram-se a andar.

Sem comentários: