
Existe em nós uma natural tendência para a autodestruição. Pior, tendemos naturalmente para uma existência penosa. Talvez este seja um factor atenuante para a nossa natureza autodestrutiva. Mas esta tendência não é de fácil explicação. As evidências apontam para uma incapacidade inata para discernir entre o essencial e o acessório; esta incapacidade encontra-se aliada a uma evidente (e inacreditável) segurança nos juízos.
As crias (ditas “bebés”), tal como nós quando o éramos, assumem comportamentos que os adultos consideram estranhos; os adultos riem e desculpam (acreditando que realmente devem desculpar) tais comportamentos e erros de juízo, quando, por exemplo, as crias dão mais atenção ao papel de embrulho do que ao patinho de borracha que vinha embrulhado. Não é sequer contemplada a hipótese de que realmente o embrulho é mais interessante do que o patinho de borracha. Note-se que no que respeita a novidade, o patinho de borracha não tem qualquer vantagem sobre o papel de embrulho. Acredito que se o patinho não fosse de borracha, e fosse sim um patinho verdadeiro, com vida, a coisa seria diferente. A cria aparentemente opta pelo acessório. Mas, dada a possibilidade, a cria opta pela vida...certo?
A cria cresce; luas e marés vão passando. E a cria deixa de ser cria. Dilui-se num mar de gente. É social. E agora escolhe o patinho de borracha. O patinho de borracha é essencial; o papel de embrulho é acessório. Não admite, no entanto, desprezar a vida. Mas a vida já não é vivida com gozo. O gozo na vida perdeu-se com o aparecimento da responsabilidade. E longe vão os tempos em que o papel de embrulho nos fazia feliz. Agora queremos, pelo menos, o patinho de borracha que todos têm; se conseguirmos um outro, um que ainda ninguém tem, melhor!
O patinho de borracha não tem pena; nem da nossa vida penosa, cheia de acessórios e cada vez mais distante de tudo o que é essencial.