terça-feira, 12 de setembro de 2006

Plutão esquecido, frio, ao longe, foi despromovido. Deixou de ser o que sempre foi desde que foi descoberto para passar a ser o que a distância e a comunidade científica permitem. O sempre gelado deus dos infernos, na sua órbita distante do Sol, é agora visto como nunca visto desde que foi visto pela primeira vez.

O que não se sabe, o que não se vê, o que não se pensa, o que não se acredita, o que não é presente é o que deixa de ser: é passado. Da verdade à mentira, uma traição. E finge-se o que não se sente, sente-se o que se finge não sentir; faz-se de conta que Plutão nunca foi um planeta. Afinal qual a importância? Antes de o conhecermos não nos fazia falta. Que importa quantos são?

Plutão abatido, enfrentou o pelotão de fuzilamento, e foi abatido. Deixou de pertencer ao sistema solar por ser periférico e insignificante. Inevitavelmente a distância e o isolamento resultaram num esquecimento sem dó maior; lá, a gravidade não atrai mais do que uma pena pequena.

Decadente como a chegada do Outono que rouba a vida às cores saturadas do Verão e vai anunciando o fim de um ciclo, o inevitável completar de uma vida. Se prima a Vera, esmera-se o Outono por acabar com o Verão antes que chegue o Inverno...que inferno!

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Pinga o nariz como que a chover no molhado. Um lenço de papel deixa-o irritado; vermelho. Espirra para manifestar todo o seu descontentamento, e outro lenço irrita-o ainda mais.

Seco ou molhado? Húmido, vá lá – fresco alfacinha! Pintura a óleo em verde alface e vermelho nariz, que são as cores da bandeira nacional. Gripe aviária ou simples estado febril? Alegre alergia ou mania da perseguição? Anti-histamínico ou comprimidos para o coração?

Ter ou não ter? – eis a questão. Pegar ou largar, mas quem ma pegou? Foi a chuva? Foi a gente? Pode ter sido um pato doente. Veio do frio ou com a corrente de ar quente? Apenas sei que me sinto dormente.

A doença deveria incitar ao egoísmo. A doença nasce da partilha, voluntária ou involuntária. Agulhas, sangue e fluídos corporais...até de outros animais!

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Senha ou ticket, para aguardar a nossa vez. Somos um número. Somos o número impresso no papel, acompanhado pela memória da hora de chegada e pela profecia do “tempo de espera previsto”. O LCD ou o plasma pendurado na parede ditará o tempo que ficaremos pendurados até que um funcionário público nos atenda. Questões de tempo são sempre complexas...

"Aguarde s.f.f."?! Haverá outra alternativa? O funcionário esquece (se alguma vez soube) ou ignora (se realmente sabe) as suas funções e maltrata quem, indirectamente, lhe paga. Não se esperem sorrisos e esqueça-se a alegria no trabalho: fossem cinzentos e seriam confundidos com elefantes. Sempre de trombas!

A Segurança Social segura a sociedade durante várias horas. O problema de retenção resolver-se-ia com um laxante social que permitisse evacuar toda a merda mais depressa. Dêem uma cenoura ao bur(r)ocrático.

Agosto é mês de férias para muitos. Um pouco por toda a parte vai-se vendo e ouvindo o slogan “vá para fora cá dentro”. Reformule-se: “vá para fora lá dentro”; que tal passar as férias num qualquer edifício estatal, enterrado em impressos (muitos dos quais desnecessários) esperando em filas intermináveis para resolver problemas que nunca existiram? “Está previsto que você espere 4 horas e 21 minutos” – não é tempo, é destino.

domingo, 13 de agosto de 2006

"Welcome to Hellgarve" – diz a tabuleta sob o sol escaldante, assinalando o fim do alcatrão, recebendo turistas destas e de outras paragens. Exposto ao sol tudo tem sombra mas, nesta terra árida, sombra não se encontra nem em miragens.

Na praia não se frita o bacon nem os ovos para o pequeno almoço; passa-se directamente para o almoço na areia: fritam-se bifes temperados com a bebida da noite anterior. Do espaço a NASA vê o planeta aquecer, a muralha da China, os fogos em Portugal, e a pele vermelha dos veraneantes.

70% dos corpos evapora, e o que sobra tosta, daqueles que gostam do Sol alto e da sombra curta. Veraneantes veteranos vergonhosamente exibem o vermelho substituto do bronze. Invariavelmente o excesso de peso deixa pregas brancas que favorecem o contraste: Seca a pele, seca.

Areia na cabeça daqueles que desejam que a areia espelhe. Espelho meu, espelho meu, há porventura alguém mais moreno do que eu? “Não!” – respondeu o cancro da pele.

domingo, 30 de julho de 2006

É irrelevante o relevo da sociedade neste mundo global. Pressupõe-se que a origem dos indivíduos seja a mesma mas eu sou filho único, e de onde vim não veio mais ninguém; sou um indivíduo individual, entenda-se.

Animal? Sim. Social? Nem por isso. Sociável? Saciável! Porque “sociável” é status; e “saciável” é predisposição para a realização individual. Uma vez saciado surge a satisfação; pelo que se conseguiu no passado e por tudo o que conseguirá no futuro. A satisfação pessoal depende, portanto, do sucesso da predisposição natural do animal pouco social e saciável.

Sem classe nem ordem, com classe para não obedecer à desordem, faço e não sigo para que sigam e façam aquilo que acredito que deva ser seguido e feito. Anarquista avesso à sociedade? Nada disso! A liberdade individual não é limitada tão facilmente; a individualidade individual é adepta de regras que protejam o seu espaço e a sua liberdade. Mas a sociedade tal qual a conhecemos está do avesso, pronta para ser lavada, centrifugada e pendurada numa corda.

A sociedade de classes, outrora dividida em alta, média e baixa, é hoje dividida em “aqueles que limpam o cu com folha dupla”, “aqueles que limpam o cu com folha simples” e “aqueles que limpam o cu aos dedos”.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

Há pão? – ouve-se perguntar durante um passeio na Baker Street, sem se ouvir qualquer resposta. Em frente ao 221b da mesma rua evita-se um “elementar, meu caro Watson” porque, isso sim, seria fictício. Alguém, algum dia, leu tal coisa nos livros? Por que raio tal frase se colou à criação de Sir Arthur Conan Doyle?

Watson: Dr. John Hamish Watson, companheiro de aventuras de Sherlock Holmes. Sem alguma vez ouvir tal “elementar...”, ouviu certamente o som do violino do famoso detective que na cocaína encontrava a inspiração; inspirava-se, inspirava-se...e inspirava-se!

Elementar; simples; mas sempre subjectivo. Aquém ou além, sempre defeituoso ou excessivo. O carácter subjectivo da subjectividade inerente à condição de sujeito, sujeita à sujeição. O melhor mesmo é pedir um refresco de limão. Há pão?

Comido o [pão] que o diabo amassou, olha-se em frente para se ver o horizonte fugir. Ténue linha que não se cansa, não se quebra, não se torce; dividindo o aquém do além assegura a condição defeituosa do sujeito excessivo.

sexta-feira, 7 de julho de 2006

Afinidades que desafinam: O elefante mereceria mais respeito; deveria até ser alvo de admiração e inveja pela dimensão! Sem grande esforço observamos que perante a probóscide do gigantesco paquiderme, em nós nada encontramos que não nos assemelhe mais a um reles insecto díptero: ignorem-se os números para evitar o embaraço; não deve sequer ser usada a mesma escala para comparar grandeza(...s?). Almejemos então a algo exequível: a memória! Que bom seria ter memória idêntica à do paquiderme probóscideo.

Zonas há, no nosso país e alhures, onde hominídeos avessos à água (talvez porque, ao contrário do elefante, sejam maus nadadores), atingiram o estatuto de “paquiderme” dada a camada de cascão que os cobre por inteiro, os defende contra as agressões do meio, e vai também mantendo à distância todo e qualquer ser vivo com capacidades olfactivas. Ignorando a dimensão proboscídea, e tendo já conseguido um lugar honroso no restrito grupo dos paquidermes, os hominídeos procuram então adquirir memória semelhante àquela do animal que a cromática acusa cinzento.

Como resultado de tal esforço, o homínideo conclui que memória implica ter presente o passado. Surge assim o revivalismo que porém não identifica completamente presente com passado. Por exemplo: Antigamente o Mini tinha tal nome porque era o de um carro pequeno; o Volkswagen era o carro do povo porque Hitler desejava que fosse tão económico que o povo fosse capaz de o adquirir; e o Mercedes, que por norma era cinzento, era, também por norma, grande. Hoje o Mini é maior que alguns Mercedes, e o Volkswagen chega a custar mais do que alguns Mercedes.

Revivalismo é ter presente um passado defeituoso. No futuro a virtude consistirá em saber se o Mini era ou não mais pequeno do que um Mercedes, que então será um carro colorido por hominídeos cinzentos que nunca saberão porque raio alguém se lembrou de dar o nome de Volkswagen a um carro que poucos poderão ter. O Hitler era mesmo mau...por gozar assim com a gente!