segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Ao fim do dia regresso a casa. Agora, novamente, na Via Bassini, que é uma rua nos subúrbios da grande cidade e cujo nome é o de um famoso cirurgião italiano do final do século XIX e do início do século XX. Edoardo Bassini é lembrado como autor do método usado ainda hoje (pelo que sei) na cirurgia da hérnia inguinal.

Nesta rua circulam, sempre cor-de-laranja por fora e de todas as cores por dentro, os transportes públicos milaneses que até são bastante pontuais, se levarmos em conta o facto de esta ser uma cidade caótica. O vermelho do semáforo passa a verde. Assim como algumas coisas demoram a mudar; outras, por sua vez, mudam constante e rapidamente. E ainda que a casa se torne lar, o lar transfere-se e a casa muda de lugar. Trata-se afinal de uma estrutura artificial que nos abriga e nos deixa ser. Sem ser para quem não queremos, pouco importa onde é.

Muda a chave no mesmo porta-chaves. Muda a porta. O recheio é, no entanto, menos sujeito a grandes oscilações e mudanças, tal como a música que ecoa entre as paredes ignorando a louça por lavar. Enche-se a casa de recordações para que esta não deixe de ser lar, mesmo que a louça continue sempre por lavar.

Pass(e)ando pela vida sem nunca se ter a certeza do destino, porque afinal não importa tanto assim o “para onde”, mas convém, no entanto, nunca esquecer a nossa origem. Porque pode sempre voltar-se ao ponto de partida; partir novamente e deixar que o destino seja outro. Sempre em casa.

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Diga-se Auschwitz para evitar dizer-se Oświęcim. Residiu neste lugar/lager o centro de operações da “Solução Final” do Terceiro Reich. Ein Reich, ein Volk, ein Führer. O Reich necessita de espaço, o Volk necessita de ser purificado (desinfectado); e o Führer quer que assim seja necessariamente.

Rudolf Franz Ferdinand Höß passeia-se onde mais tarde será suspenso até que o nó na garganta lhe roube o sopro da vida; ali, onde antes, muitos antes dele, suspiraram e expiraram, guardados pelo arame farpado electrificado e pelos atentos atiradores alemães nas torres de vigia. Arbeit Macht Frei recebe ironicamente os convidados, uma vez que a liberdade resulta não do trabalho mas sim da morte, e a saída definitiva é feita não pelo portão de entrada mas sim pela chaminé do crematório.

A falta de espaço cedo invade Auschwitz que se torna demasiado pequeno para tantos convidados. De Oświęcim a Brzezinka onde nasce Birkenau, vinte vezes maior do que Auschwitz, para provar que as coisas podem sempre piorar. Atravessado o portão da morte, o comboio descarrega os convidados que são imediatamente separados: cabe ao Dr. Josef Mengele decidir sobre questões de aptidão, para que no fim uns morram logo e outros mais tarde. Inaptos em marcha para um banho que nunca irão tomar são aconselhados a escrever o nome nas suas malas e a memorizar o local onde deixam as suas roupas. Despidos e fechados num banho colectivo, esperam a água que nunca chegará enquanto o desinfektionkommando descarrega as latas de “Zyklon-B” no interior do edifício. Fora, a banda toca abafando o desespero dos que não morrem logo.

O lento extermínio preocupa-se com a reciclagem e tudo deve ser aproveitado. O cabelo, ainda que de uma raça inferior, serve para vestir as tropas da raça superior. Dentes de ouro, jóias e outros bens de valor, tudo se armazena no “Canadá” para ajudar a causa purificadora. Quantos, não se sabe ao certo; mas muitos...muito provavelmente.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Às 9 horas e 11 minutos da manhã do dia 13 do mês de Setembro do ano de 2006 espera-se pelo 93 que é um veículo eléctrico mas não anda sobre carris. O 23, que passa um pouco mais adiante, e é também um veículo eléctrico, esse sim, anda sobre carris. Tanto o 23 como o 93 são veículos eléctricos; ambos são cor-de-laranja. Seguem diferentes direcções mas, aqui, o seu percurso cruza-se: Um, o 23, sobre carris, o outro, o 93, sobre o asfalto, hoje, no dia 13 do mês de Setembro do ano de 2006, pelas 9 horas e 11 minutos da manhã. A cena repete-se em muitos outros dias, com outros e com os mesmos números.

7 carros, 2 bicicletas e 3 motociclos atrasam a viagem do 93 que anda sobre o asfalto e não sobre carris. Os 7 carros passam a ser apenas 5 depois de 2 paragens do 93, mas às 2 bicicletas junta-se outra, e passam então a ser 3 as bicicletas; os 3 motociclos entretanto desapareceram. O 93, sempre cor-de-laranja, costuma chegar a horas.

Números, medidas, quantidades e até superstições. Hoje é quarta-feira e não sexta-feira, mas é também o dia 13 deste mês. Talvez porque em Itália os supersticiosos temam mais o dia 17, a viagem do 93 corre sem problemas. E o 93 chega ao destino; cor-de-laranja sobre o asfalto, o 93 chega à hora prevista.

Hoje, quarta-feira, dia 13 de Setembro de 2006, 414 anos depois da morte de Michel de Montaigne, já depois da reforma do calendário operada pelo Papa Gregório XIII, o 93 chegou a horas. Amén.

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Plutão esquecido, frio, ao longe, foi despromovido. Deixou de ser o que sempre foi desde que foi descoberto para passar a ser o que a distância e a comunidade científica permitem. O sempre gelado deus dos infernos, na sua órbita distante do Sol, é agora visto como nunca visto desde que foi visto pela primeira vez.

O que não se sabe, o que não se vê, o que não se pensa, o que não se acredita, o que não é presente é o que deixa de ser: é passado. Da verdade à mentira, uma traição. E finge-se o que não se sente, sente-se o que se finge não sentir; faz-se de conta que Plutão nunca foi um planeta. Afinal qual a importância? Antes de o conhecermos não nos fazia falta. Que importa quantos são?

Plutão abatido, enfrentou o pelotão de fuzilamento, e foi abatido. Deixou de pertencer ao sistema solar por ser periférico e insignificante. Inevitavelmente a distância e o isolamento resultaram num esquecimento sem dó maior; lá, a gravidade não atrai mais do que uma pena pequena.

Decadente como a chegada do Outono que rouba a vida às cores saturadas do Verão e vai anunciando o fim de um ciclo, o inevitável completar de uma vida. Se prima a Vera, esmera-se o Outono por acabar com o Verão antes que chegue o Inverno...que inferno!

sexta-feira, 18 de agosto de 2006

Pinga o nariz como que a chover no molhado. Um lenço de papel deixa-o irritado; vermelho. Espirra para manifestar todo o seu descontentamento, e outro lenço irrita-o ainda mais.

Seco ou molhado? Húmido, vá lá – fresco alfacinha! Pintura a óleo em verde alface e vermelho nariz, que são as cores da bandeira nacional. Gripe aviária ou simples estado febril? Alegre alergia ou mania da perseguição? Anti-histamínico ou comprimidos para o coração?

Ter ou não ter? – eis a questão. Pegar ou largar, mas quem ma pegou? Foi a chuva? Foi a gente? Pode ter sido um pato doente. Veio do frio ou com a corrente de ar quente? Apenas sei que me sinto dormente.

A doença deveria incitar ao egoísmo. A doença nasce da partilha, voluntária ou involuntária. Agulhas, sangue e fluídos corporais...até de outros animais!

quarta-feira, 16 de agosto de 2006

Senha ou ticket, para aguardar a nossa vez. Somos um número. Somos o número impresso no papel, acompanhado pela memória da hora de chegada e pela profecia do “tempo de espera previsto”. O LCD ou o plasma pendurado na parede ditará o tempo que ficaremos pendurados até que um funcionário público nos atenda. Questões de tempo são sempre complexas...

"Aguarde s.f.f."?! Haverá outra alternativa? O funcionário esquece (se alguma vez soube) ou ignora (se realmente sabe) as suas funções e maltrata quem, indirectamente, lhe paga. Não se esperem sorrisos e esqueça-se a alegria no trabalho: fossem cinzentos e seriam confundidos com elefantes. Sempre de trombas!

A Segurança Social segura a sociedade durante várias horas. O problema de retenção resolver-se-ia com um laxante social que permitisse evacuar toda a merda mais depressa. Dêem uma cenoura ao bur(r)ocrático.

Agosto é mês de férias para muitos. Um pouco por toda a parte vai-se vendo e ouvindo o slogan “vá para fora cá dentro”. Reformule-se: “vá para fora lá dentro”; que tal passar as férias num qualquer edifício estatal, enterrado em impressos (muitos dos quais desnecessários) esperando em filas intermináveis para resolver problemas que nunca existiram? “Está previsto que você espere 4 horas e 21 minutos” – não é tempo, é destino.

domingo, 13 de agosto de 2006

"Welcome to Hellgarve" – diz a tabuleta sob o sol escaldante, assinalando o fim do alcatrão, recebendo turistas destas e de outras paragens. Exposto ao sol tudo tem sombra mas, nesta terra árida, sombra não se encontra nem em miragens.

Na praia não se frita o bacon nem os ovos para o pequeno almoço; passa-se directamente para o almoço na areia: fritam-se bifes temperados com a bebida da noite anterior. Do espaço a NASA vê o planeta aquecer, a muralha da China, os fogos em Portugal, e a pele vermelha dos veraneantes.

70% dos corpos evapora, e o que sobra tosta, daqueles que gostam do Sol alto e da sombra curta. Veraneantes veteranos vergonhosamente exibem o vermelho substituto do bronze. Invariavelmente o excesso de peso deixa pregas brancas que favorecem o contraste: Seca a pele, seca.

Areia na cabeça daqueles que desejam que a areia espelhe. Espelho meu, espelho meu, há porventura alguém mais moreno do que eu? “Não!” – respondeu o cancro da pele.