Ao fim do dia regresso a casa. Agora, novamente, na Via Bassini, que é uma rua nos subúrbios da grande cidade e cujo nome é o de um famoso cirurgião italiano do final do século XIX e do início do século XX. Edoardo Bassini é lembrado como autor do método usado ainda hoje (pelo que sei) na cirurgia da hérnia inguinal.Nesta rua circulam, sempre cor-de-laranja por fora e de todas as cores por dentro, os transportes públicos milaneses que até são bastante pontuais, se levarmos em conta o facto de esta ser uma cidade caótica. O vermelho do semáforo passa a verde. Assim como algumas coisas demoram a mudar; outras, por sua vez, mudam constante e rapidamente. E ainda que a casa se torne lar, o lar transfere-se e a casa muda de lugar. Trata-se afinal de uma estrutura artificial que nos abriga e nos deixa ser. Sem ser para quem não queremos, pouco importa onde é.
Muda a chave no mesmo porta-chaves. Muda a porta. O recheio é, no entanto, menos sujeito a grandes oscilações e mudanças, tal como a música que ecoa entre as paredes ignorando a louça por lavar. Enche-se a casa de recordações para que esta não deixe de ser lar, mesmo que a louça continue sempre por lavar.
Pass(e)ando pela vida sem nunca se ter a certeza do destino, porque afinal não importa tanto assim o “para onde”, mas convém, no entanto, nunca esquecer a nossa origem. Porque pode sempre voltar-se ao ponto de partida; partir novamente e deixar que o destino seja outro. Sempre em casa.






