segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Deserto. Não se vê vivalma num espaço aparentemente infinito e o tempo cristaliza-se. Certamente seremos devorados pelas incertezas; de certeza! O céu azul não o é para todos, e quando estamos sozinhos não nos importamos com as cores que outros vêem.

Ignorando o destino, não sabemos quanto caminho nos falta percorrer. Muito ou pouco não é relativo, é absurdo. E ermo não é sinónimo de inóspito; mas por alguma razão ninguém mora aqui. Porquê?

Antes só do que mal acompanhado; mas a sombra teima em acompanhar. Miragem ou utopia? Se fecharmos os olhos ela persiste? E a sombra, continua lá?

Paranóia e insolação, estado mórbido e mania da perseguição. Vaguear devagar, sem mudar de ar, estiagem desidratando a pele suavemente, áspera, à espera da harmonia que suaviza as formas.

terça-feira, 31 de outubro de 2006

A distância é curta e as barreiras inexistentes ou há muito ultrapassadas. Eles são como nós e nós somos como eles. A dita Generation X de escritores é irresponsável e, por isso, responsável pelo encurtar da tal distância e pelo fim de tais barreiras.

O escocês (orgulhoso de o ser) Irvine Welsh é um destes escritores; autor de “Trainspotting” e de diversas outras obras de ficção, menos conhecidas mas nem por isso menos interessantes, que teimam em descrever a nossa como uma sociedade decadente.

É curta também a distância entre a ficção e a realidade, e é pouco definida a barreira entre a realidade e a sátira. Onde começa e acaba a ironia? No fundo, os livros de Irvine Welsh são espelhos que nos reflectem também a nós, de uma forma mais ou menos distorcida; e, interessante é a ideia de não-evolução, aparentemente inerente às personagens, ou seja, ao nosso reflexo mais ou menos distorcido nas ficções. Não existe uma verdadeira evolução. A mudança não é novidade em absoluto mas mais do mesmo com aspecto diferente: lavou, ‘tá novo!

As personagens não estão limitadas a uma ficção e, como a nossa sociedade parece impor, são recicláveis, aparecendo em diversas obras do autor escocês. O mundo vai mudando, sem evoluir, as histórias vão-se cruzando e a ficção vai deixando de o ser.

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Anoiteceu (desfez-se luz). O curioso que procurava uma agulha no palheiro acendeu um fósforo provando assim que a curiosidade pode ser uma actividade incendiária; o curioso, ele mesmo um verdadeiro incendiário, um pirómano piromaníaco, adepto fervoroso da piromania incendiária.

Curiosa a curiosidade, tão rara e preciosa característica que anima o desejo de satisfação do espírito e condiciona o corpo à sua vontade. Parece não ter fim o palheiro e a agulha não existir, mas a indiscrição, talvez maior que o palheiro, não deixa d’existir.

Brincando com o fogo aprendemos muito do que sabemos, e a brincadeira não terminará nunca porque o fogo matou o gato e só o gato. A nossa salvação é, no entanto, também uma maldição porque não podemos, mesmo querendo, deixar de brincar com o fogo. E talvez não se evitem alguns suplícios, mas serão sempre como fogo de palha e a curiosidade prevalecerá.

Dinamizando mente e corpo, reduzindo a cinzas tudo mais, a curiosidade é a combustão que terminará quando do corpo já não for dinâmico e estiver preparado, pela decrepitude da mente, também ele, para ser reduzido a cinzas. Venha a lume o natural lume de todos os que não serão senão vítimas desse lume que os consumirá até que nada mais do que cinzas deles reste. Amanheceu (fez-se luz).

segunda-feira, 9 de outubro de 2006

Ao fim do dia regresso a casa. Agora, novamente, na Via Bassini, que é uma rua nos subúrbios da grande cidade e cujo nome é o de um famoso cirurgião italiano do final do século XIX e do início do século XX. Edoardo Bassini é lembrado como autor do método usado ainda hoje (pelo que sei) na cirurgia da hérnia inguinal.

Nesta rua circulam, sempre cor-de-laranja por fora e de todas as cores por dentro, os transportes públicos milaneses que até são bastante pontuais, se levarmos em conta o facto de esta ser uma cidade caótica. O vermelho do semáforo passa a verde. Assim como algumas coisas demoram a mudar; outras, por sua vez, mudam constante e rapidamente. E ainda que a casa se torne lar, o lar transfere-se e a casa muda de lugar. Trata-se afinal de uma estrutura artificial que nos abriga e nos deixa ser. Sem ser para quem não queremos, pouco importa onde é.

Muda a chave no mesmo porta-chaves. Muda a porta. O recheio é, no entanto, menos sujeito a grandes oscilações e mudanças, tal como a música que ecoa entre as paredes ignorando a louça por lavar. Enche-se a casa de recordações para que esta não deixe de ser lar, mesmo que a louça continue sempre por lavar.

Pass(e)ando pela vida sem nunca se ter a certeza do destino, porque afinal não importa tanto assim o “para onde”, mas convém, no entanto, nunca esquecer a nossa origem. Porque pode sempre voltar-se ao ponto de partida; partir novamente e deixar que o destino seja outro. Sempre em casa.

quinta-feira, 28 de setembro de 2006

Diga-se Auschwitz para evitar dizer-se Oświęcim. Residiu neste lugar/lager o centro de operações da “Solução Final” do Terceiro Reich. Ein Reich, ein Volk, ein Führer. O Reich necessita de espaço, o Volk necessita de ser purificado (desinfectado); e o Führer quer que assim seja necessariamente.

Rudolf Franz Ferdinand Höß passeia-se onde mais tarde será suspenso até que o nó na garganta lhe roube o sopro da vida; ali, onde antes, muitos antes dele, suspiraram e expiraram, guardados pelo arame farpado electrificado e pelos atentos atiradores alemães nas torres de vigia. Arbeit Macht Frei recebe ironicamente os convidados, uma vez que a liberdade resulta não do trabalho mas sim da morte, e a saída definitiva é feita não pelo portão de entrada mas sim pela chaminé do crematório.

A falta de espaço cedo invade Auschwitz que se torna demasiado pequeno para tantos convidados. De Oświęcim a Brzezinka onde nasce Birkenau, vinte vezes maior do que Auschwitz, para provar que as coisas podem sempre piorar. Atravessado o portão da morte, o comboio descarrega os convidados que são imediatamente separados: cabe ao Dr. Josef Mengele decidir sobre questões de aptidão, para que no fim uns morram logo e outros mais tarde. Inaptos em marcha para um banho que nunca irão tomar são aconselhados a escrever o nome nas suas malas e a memorizar o local onde deixam as suas roupas. Despidos e fechados num banho colectivo, esperam a água que nunca chegará enquanto o desinfektionkommando descarrega as latas de “Zyklon-B” no interior do edifício. Fora, a banda toca abafando o desespero dos que não morrem logo.

O lento extermínio preocupa-se com a reciclagem e tudo deve ser aproveitado. O cabelo, ainda que de uma raça inferior, serve para vestir as tropas da raça superior. Dentes de ouro, jóias e outros bens de valor, tudo se armazena no “Canadá” para ajudar a causa purificadora. Quantos, não se sabe ao certo; mas muitos...muito provavelmente.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Às 9 horas e 11 minutos da manhã do dia 13 do mês de Setembro do ano de 2006 espera-se pelo 93 que é um veículo eléctrico mas não anda sobre carris. O 23, que passa um pouco mais adiante, e é também um veículo eléctrico, esse sim, anda sobre carris. Tanto o 23 como o 93 são veículos eléctricos; ambos são cor-de-laranja. Seguem diferentes direcções mas, aqui, o seu percurso cruza-se: Um, o 23, sobre carris, o outro, o 93, sobre o asfalto, hoje, no dia 13 do mês de Setembro do ano de 2006, pelas 9 horas e 11 minutos da manhã. A cena repete-se em muitos outros dias, com outros e com os mesmos números.

7 carros, 2 bicicletas e 3 motociclos atrasam a viagem do 93 que anda sobre o asfalto e não sobre carris. Os 7 carros passam a ser apenas 5 depois de 2 paragens do 93, mas às 2 bicicletas junta-se outra, e passam então a ser 3 as bicicletas; os 3 motociclos entretanto desapareceram. O 93, sempre cor-de-laranja, costuma chegar a horas.

Números, medidas, quantidades e até superstições. Hoje é quarta-feira e não sexta-feira, mas é também o dia 13 deste mês. Talvez porque em Itália os supersticiosos temam mais o dia 17, a viagem do 93 corre sem problemas. E o 93 chega ao destino; cor-de-laranja sobre o asfalto, o 93 chega à hora prevista.

Hoje, quarta-feira, dia 13 de Setembro de 2006, 414 anos depois da morte de Michel de Montaigne, já depois da reforma do calendário operada pelo Papa Gregório XIII, o 93 chegou a horas. Amén.

terça-feira, 12 de setembro de 2006

Plutão esquecido, frio, ao longe, foi despromovido. Deixou de ser o que sempre foi desde que foi descoberto para passar a ser o que a distância e a comunidade científica permitem. O sempre gelado deus dos infernos, na sua órbita distante do Sol, é agora visto como nunca visto desde que foi visto pela primeira vez.

O que não se sabe, o que não se vê, o que não se pensa, o que não se acredita, o que não é presente é o que deixa de ser: é passado. Da verdade à mentira, uma traição. E finge-se o que não se sente, sente-se o que se finge não sentir; faz-se de conta que Plutão nunca foi um planeta. Afinal qual a importância? Antes de o conhecermos não nos fazia falta. Que importa quantos são?

Plutão abatido, enfrentou o pelotão de fuzilamento, e foi abatido. Deixou de pertencer ao sistema solar por ser periférico e insignificante. Inevitavelmente a distância e o isolamento resultaram num esquecimento sem dó maior; lá, a gravidade não atrai mais do que uma pena pequena.

Decadente como a chegada do Outono que rouba a vida às cores saturadas do Verão e vai anunciando o fim de um ciclo, o inevitável completar de uma vida. Se prima a Vera, esmera-se o Outono por acabar com o Verão antes que chegue o Inverno...que inferno!