sexta-feira, 26 de janeiro de 2007

“Mãe é só uma” só se pensarmos na de cada um, de uma forma bastante específica e até redutora. Todos temos, para além da nossa mãe biológica, que no caso de termos irmãos também biológicos é partilhada, a inevitável partilha da Mãe Natureza da qual todos somos filhos; até as nossas mães...aquelas biológicas!

A Mãe Natureza é solteira, e o Pai incógnito. Aqueles mais crentes e, talvez até mais felizes, encontram o Pai numa entidade misteriosa muito discutida e raramente ou nunca vista. Será então que somos todos filhos bastardos? Se assim for, é realmente pesada esta herança que sobre nós paira e à qual a Mãe de todos nós nos condena; cruel, esta Mãe, é a mesma que ao pato, ave nobre que no arroz e com laranja é delícia para o palato de muitos, obriga à bigamia.

Todo o pato, excepto aqueles deficientes vítimas de amputação, tem duas patas; assim, por definição, bígamos graças à Mãe Natureza. Palmípedes alados voam para Sul ignorando a culpa pelo espalhar dos vírus. Bígamos, polígamos...digamos que são alheios à situação.

A vitamina C da laranja no arroz, sem o pato, e talvez até sem o arroz, talvez até ajude à cura. Mas quanto à bigamia, a do pato, por culpa da Mãe Natureza, essa obriga as patas a darem o arroz aos patos.

segunda-feira, 22 de janeiro de 2007

Mais vale um pterodáctilo na mão do que dois a voar para a extinção. Era uma Era e agora veio outra; como na Primavera, o ciclo da vida recomeçou, sob o signo da andorinha com ascendente em pterodáctilo.

Na tangencial à grande cidade da planície, o nevoeiro foi substituído por mosquitos que na canção voam como pássaros e, pelo menos por estas paragens, não lhes devem muito em tamanho.

Nevoeiro ou mosquitos, ou talvez até o smog em trânsito do trânsito em trânsito, não permite qualquer avistamento positivo de qualquer das abadias que os sinais informativos vão informando existirem nas proximidades.

O consumo aumenta. O tempo passa. A uva também; não aumenta mas passa. E no final o que fica? Mais vale...

domingo, 31 de dezembro de 2006

As últimas deste ano a dar as últimas são sobre questões de fidelidade. O que está em alta? O que está em baixa? Falamos sempre de fidelidade...?! Em alta a fidelidade quando a confiança anda por baixo. É música para os ouvidos a frequência fiel que é reproduzida quando não eliminada à partida. Push Play!

365 dias, e um é dos fieis. Se forem 366, apenas um será dos fieis. Uma vez em cada quatro há mais um dia no ano, não para os fieis mas para todos. E afinal quem tem confiança para ser fiel?

Fiel é nome de cão. Velho, o meu chama-se Zappa. A idade é uma questão de perseverança; fiel, cumpre cada ano como se tivesse nascido a isso obrigado. A fidelidade é inata porque nunca se põe qualquer questão de confiança; e vai-se aguentando.

Invariável a constante, aguenta firme a pressão; não vai em horóscopos e não ouve a mesma canção. Ascendente só quando sobe, ainda que na vida se encontre na curva descendente do seu tempo biológico. Nariz frio, vai à frente e entra primeiro no novo ano; fiel como sempre.

sábado, 9 de dezembro de 2006

“Ela uma vez...” não parece ser forma de começar um conto. Mas eu não conto e já há muito comecei; por isso: Ela uma vez...sorriu! E assim ficou, pelo menos por um momento, naquele momento que não passou; preto no branco, ficou gravado, sem suporte analógico ou digital, numa memória (um) pouco turva que privilegia o cinzento mas é também capaz de reconhecer as demais cores.

Preto no branco o cinzento deixa de ser cor. No nosso que é um mundo de muitas cores e o cinzento dominante passa aparentemente despercebido. Apontam-me o dedo por apontar o meu ao cinzento culpado: indesculpável. E porque as coisas podem sempre ser piores devemos dar graças por assim não serem.

Num quadro preto o giz escreve a branco tudo o que pode ser apagado. Na vida nada se apaga e tudo fica escrito preto no branco. Olhar o mundo e ver cinzento talvez seja forma de fugir à frieza dos factos, esperando sorrisos coloridos, como aquele, capazes de conquistar espaço no espectro luminoso.

As minhas são memórias coloridas. Para tal qual as manter, olho o mundo cinzento fingindo e fugindo mas sem ignorar as cores que rompem a monotonia cromática. E assim elas ficam gravadas; para sempre recordadas e certamente apreciadas. "Ela uma vez...", acaba assim?

terça-feira, 28 de novembro de 2006

Acordar de manhã é bom porque antes se esteve a dormir; apenas por isso. E vão-se esgotando os recursos naturais de um mundo que não pode parar. Combustíveis para aumentar a pressão e a impressão da cafeína para aumentar a tensão. Não há fuga, não há válvula nem escape. Toca o despertador.

Por via oral, ainda que por intravenosa talvez fosse melhor, é servida a doce ilusão de poder e de ser capaz de aguentar...é a via, é a vida. É só mais um; mais outro que não o primeiro e seguramente não será o último. Por via das dúvidas.

O trânsito já nem importa enquanto transito pela via da rotina obedecendo a todos os sinais de sentido obrigatório; contorno respeitosamente todas as rotundas que me levam ao ponto de partida que teimosamente se faz passar por ponto de chegada ainda que nunca seja o ponto final. Passageiro é o condutor em trânsito e o tempo à chegada.

Conto-as aos pares para parecerem metade; muitas mais seriam o dobro do que algum dia eu iria ser capaz de suportar. Impaciente, porque parecem nunca mais acabar e quando acabam pouco falta para recomeçarem, transito até novo ponto de partida onde me espera o trânsito de mais um regresso ao mesmo.

sábado, 11 de novembro de 2006

Difícil por culpa do temperamento ou do excesso de personalidade. Feitio, que mais não é do que um efeito cuja causa provém daqueles que me acusam de o ter mau. Fosse a vida um jogo, e o principal objectivo de viver amealhar pontos nos confrontos pessoais, e eu perderia por muitos.

Distracção, verdadeira ou conveniente, usada como sal para dar sabor à vida ou, pelo menos, para disfarçar sabores desagradáveis que se escondem sob a forma de dissabores. Fazer-se de conta e no fim nem pedir a conta; prosseguir sem digerir porque nunca nada aconteceu, percebido? Despercebido...

Uns assumem, outros presumem; uns admitem, outros nem por isso. Convém a coincidência, ainda que fruto de artes e de ofícios, porque pode muito bem tratar-se mais outra. Antes da próxima, mais próxima do que se pode imaginar.

Ignorância servida como vingança; à superfície, calor de microondas contrastando como as casas de um tabuleiro de xadrez onde rei é posto em xeque por ir nu. Mas não terá tempo de o matar a pneumonia porque antes matará uma rara doença sanguínea que lhe afecta os glóbulos azuis. E ele nem imagina... Sangue, ainda que azul, real, e que realmente lhe corre nas veias, não é imune a anemias e outras doenças. Xeque-mate.

segunda-feira, 6 de novembro de 2006

Deserto. Não se vê vivalma num espaço aparentemente infinito e o tempo cristaliza-se. Certamente seremos devorados pelas incertezas; de certeza! O céu azul não o é para todos, e quando estamos sozinhos não nos importamos com as cores que outros vêem.

Ignorando o destino, não sabemos quanto caminho nos falta percorrer. Muito ou pouco não é relativo, é absurdo. E ermo não é sinónimo de inóspito; mas por alguma razão ninguém mora aqui. Porquê?

Antes só do que mal acompanhado; mas a sombra teima em acompanhar. Miragem ou utopia? Se fecharmos os olhos ela persiste? E a sombra, continua lá?

Paranóia e insolação, estado mórbido e mania da perseguição. Vaguear devagar, sem mudar de ar, estiagem desidratando a pele suavemente, áspera, à espera da harmonia que suaviza as formas.