
A queda do morango não resultou em tragédia. Tropeçou na ambiguidade, desprendeu-se de tudo e caiu; mas a sorte não o abandonou e o
chantilly amparou-o na gravidade do momento. Nada se partiu e o morango não se magoou.
São as quedas que fortalecem a personalidade que se diz não medir-se aos palmos; mas então, e as quedas? Mais ou menos pequenas para os graves que caindo, mais ou menos pequenos, gravemente vão aspirando o ar sem expiar nem expirar. Será forte a personalidade de quem tende naturalmente para a queda ainda que sem tentação?
Obrigada ao abrigo da luz a tentação vai conspirando sem transpirar; e dessa conspiração nasce a ambiguidade que, em contra-mão numa via de sentido único, sem equívocos, provoca o acidente. O morango, que bem (nos) soube evitar o choque frontal com a ambiguidade, não evitou, no entanto, o tropeção que, do exagero do desvio, gravemente o puxou para o abismo.
Fada de um fado almofadado, fina flor a nata, aqui vestida de
chantilly, salvando da perdição os que caem (talvez por ela) em tentação. Ambíguo o fado? Que sorte a do morango que assim sobreviveu para contar.