domingo, 14 de fevereiro de 2010

Naquela noite fria e sem lua havia de tudo um pouco menos e escondia-se tudo atrás de nada. Um cigarro veio à janela e acendeu alguém sem filtro que expirava fumo e gritava a plenos pulmões: "Arde-me o cancro que me vai comendo o papel!".

Numa estrada, para lá dos gritos abafados pelo isolamento, do outro lado da solidão, reflectiam os faróis de um anel fora do dedo que vinha até fora de mão e também fora de tempo. Nunca é tarde para se saber se se chega a tempo. Fora por estar fora? Talvez fosse…

Travaram ao longe e fizeram fumo escondendo assim tudo o que a seguir se passou. Ergueram uma parede temporária que encobriu a conspiração. Meteram os corpos na mala e seguiram para outras paragens. Perdeu-se tempo e nada se encontrou.

O cigarro voltou para dentro e, quando se aconchegava no aperto do maço, ouviu o grito de pneus no asfalto que morreram de seguida sob aquele céu escuro do qual a lua havia fugido.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Não precisas de olhos para ver o vazio. O eco do silêncio é suficiente para abafar o ruído que te tem roído por dentro. Lembra-te que nunca ninguém se sente só; apenas se ressente (do passado no presente).

O hoje será apenas o ontem do amanhã, por isso pousa a cabeça por um instante e lembra-te que já morreste antes. Não vais esquecer quem foste nem vais conseguir voltar atrás até deixares de ser. Serás um dia esquecido por quem de ti não se irá lembrar e nunca te lembrarão aqueles que não te conheceram.

Não jogas em casa e as regras mudam constantemente. O resultado já foi decidido e não deves preocupar-te. Lembra-te que nada depende de ti; és livre de pensar que és livre (e podes iludir-te como quiseres).

O hoje será apenas o ontem do amanhã, por isso levanta a cabeça e pensa que nada acontece por acaso. Não és o dono do cavalo branco nem estacionas em segunda fila. Serás um dia lembrado por quem nunca foste.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Porque já foi escrito que:

(c) Qui bien faict, exerce une action belle et honeste; qui reçoit, l'exerce utile seulement; or l'utile est de beaucoup moins aimable que l'honneste. L'honneste est stable et permanent, fournissant à celuy qui l'a faict une gratification constante. L'utile se perd et eschappe facilement; et n'en est la memoire ny si fresche ny si douce. Les choses nous sont plus cheres, qui nous ont plus cousté; et il est plus difficile de donner que de prendre.*

(c) Quem faz o bem exerce uma ação bela e honesta; quem recebe, exerce-a útil somente; ora, o útil é muito menos amável que o honesto. O honesto é estável e permanente, proporcionando a quem o fez uma gratificação constante. O útil perde-se e escoa facilmente; e sua lembrança não é nem tão fresca nem tão doce. Mais caras nos são as coisas que nos custaram mais; e é mais difícil dar do que receber.**

*Michel de Montaigne Essais, Livre II, Chapitre VIII – De l'affection des peres aux enfans.
**Tradução de Rosemary Costhek Abílio.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Considerações sobre a cronologia de recentes descobertas:

No dia 13 de Novembro de 2009 a NASA anunciou a descoberta de água na Lua.

Na noite de 14 de Novembro de 2009 acordei com sede.

Para quem acorda com sede durante a noite, a água que a NASA descobriu na Lua pouco interessa.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Durante um dia de Verão em Milão, enquanto o calor derrete o alcatrão, a população local opta por evaporar-se para mais tarde chover na planície numa noite de temporal. Em Milão no Verão há quebras de tensão e motins nas ruas provocados pela escassez de água com açúcar.

Imagine-se uma sauna, mas ao ar livre. Imagine-se o inferno, mas sem a parte boa. Imagine-se um termómetro em greve porque o mercúrio foi de férias. A temperatura em Milão durante um dia de Verão não se mede em graus; de nada serve a escala Celsius e pouco se faz da escala Fahrenheit.

Durante um dia de Verão em Milão é comum a miragem e frequente a alucinação. Em Milão no Verão é habitual a morte por insolação. Em Milão no Verão há mosquitos de dia e melgas de noite que em tamanho pouco devem ao de um avião.

Imagine-se que há quem por cá tenha ficado, sem lucidez e com pouca roupa. Imagine-se que não é fruto da imaginação, que circula assim mesmo transpirando proibição a menores. É Milão no Verão.

terça-feira, 23 de junho de 2009

É-se do Porto quando lá se nasce. Passa-se pelo Porto quando por lá se está. E quando assim acontece somos saudados até pelas estátuas: à nossa passagem inclina a cabeça o Vímara Peres, tira o chapéu o Homem do Leme e o Garrett pisca o olho se mais ninguém estiver a olhar.

Voam gaivotas vindas do mar afugentando para bem longe as pombas que viram voar antes delas a calçada do centro da cidade. Rio-me conciso deste Rio com Siza e sem siso; rio-me eu e ri-se toda a gente, ri-se também o granito – o último grito – que vai de moda.

Agoniza o cimbalino que de mão dada com o calão vai morrendo pelas ruas enquanto vão passando turistas que chegaram de avião. Pergunta um paralelo gasto a um iluminado lampião se aparece no mapa ou se quem o calca está condenado à perdição.

Antiga mui nobre sempre leal e invicta cidade em constante renovação. Metamorfose mitológica transforma a serpe em dragão que reduz a cinzas a fénix que renasce eternamente a caminho da perfeição. Amanhã é dia de São João.

terça-feira, 26 de maio de 2009

É como se para cá se chegar fosse necessário subir cem escadas sem degraus. É como se para cá se chegar fossem necessários quarenta dias mesmo evitando a etapa da ressurreição porque, como se sabe, a Via Dolorosa fica longe daqui e por cá ninguém carrega cruzes.

O Monte é Branco independentemente das alturas que vão variando conforme as estações e as temperaturas; para que não se pense que por cá impera a monotonia.

Ouve-se o eco do silêncio e procuram-se pontos de referência sem fé na agulha nem no magnetismo do Norte. As vistas são fantásticas mesmo para quem se perde.

Se nunca ninguém manda postais da mais alta cicatriz do velho continente é porque por aqui não há selos; se há música no coração é porque tudo o vento levou e só um idiota se lembra que há lodo no cais.