domingo, 20 de junho de 2010

Se me perguntarem como foi, eu minto: digo que foi um acidente cortar demasiado rente; digo que não correu bem como eu queria. “Foi-se a barba e ele também. Não levem a mal mas a barba até lhe estava bem.”.

Afinal só nós sabemos a verdade. Só que eu não quero e tu não podes contar. Ninguém vai desconfiar. Ninguém vai saber que há já muito tempo a tinhas perdido por mim…essa cabeça fora do lugar.

Gostava ainda de saber por que motivo duvidam de minha mãe que nunca te fez mal. Tão boa pessoa, Santa mulher. Merece lá o martírio das acusações e da ignomínia. Difamada por gentes de má fama a quem a água da tua concha não matou a sede nem lavou as línguas afiadas.

O meu Oscar Selvagem por uma interpretação irrepreensível; a tua cabeça numa bandeja com uma execução perfeita. Corte limpo: foste João, assino Salomé.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Mata a fome com as mãos. Rouba a cena sem irmãos. Age só pelos cantos e pela sombra. A porta abre-se à oportunidade. Acende a lâmpada sem génio e entra pela calada.

Desenrola os dedos no bolso e dá a mão ao exterior. A novela fala de um novelo velado acima de um cotovelo amputado sem dor e com sangue, nem vê-lo quente ou frio, que escorre até ao coto encharcando o velo.

Dor de cabeça ainda perdida com a perda dos dedos que já não coçam o que devem. Vão encontrar-se à noite em bares escuros e sujos, infestados e infectados onde se enrolarão em brigas com anéis, limas e corta-unhas.

Esvai-se anémico perante o inimigo que sorri a meias salientando as veias azuis antes de virar a página com um corte de papel que escapa ao seguro e fica a pensar na baixa médica que não lhe chegava ao ombro.

quinta-feira, 11 de março de 2010


Calçava sapatos pretos e cruzava as pernas alimentando poses para uma fotografia que nunca seria. Poderia ter sido estrela de cinema com aquele sorriso vazio que derretia o gelo no copo e enchia o olhar.

Via-se ao longe, disfarçada de si mesma, enquanto fazia um filme sem guião. Chegara de avião e não era de cá. Tinha argumentos para roubar a cena e sabia bem que sabia bem. Escondia no bolso um lápis, uma chave e as evidências; por baixo das unhas sem verniz encontravam-se os vestígios da arrogância.

Entre um copo e outro, o lápis servia para escrever uma história sem início e a chave procurava as suas irmãs: faltavam seis e o final continuava fechado. Era tarde mas parecia ser cedo. Estava tudo a fechar mas permanecia tudo em aberto.

Piscava o olho à menina e bebia o sumo daquele fruto a que chamam imaginação. Inclinou a cabeça para baixo e quando levantou o olhar viu-a descruzar as pernas e os sapatos pretos puseram-se a andar.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Naquela noite fria e sem lua havia de tudo um pouco menos e escondia-se tudo atrás de nada. Um cigarro veio à janela e acendeu alguém sem filtro que expirava fumo e gritava a plenos pulmões: "Arde-me o cancro que me vai comendo o papel!".

Numa estrada, para lá dos gritos abafados pelo isolamento, do outro lado da solidão, reflectiam os faróis de um anel fora do dedo que vinha até fora de mão e também fora de tempo. Nunca é tarde para se saber se se chega a tempo. Fora por estar fora? Talvez fosse…

Travaram ao longe e fizeram fumo escondendo assim tudo o que a seguir se passou. Ergueram uma parede temporária que encobriu a conspiração. Meteram os corpos na mala e seguiram para outras paragens. Perdeu-se tempo e nada se encontrou.

O cigarro voltou para dentro e, quando se aconchegava no aperto do maço, ouviu o grito de pneus no asfalto que morreram de seguida sob aquele céu escuro do qual a lua havia fugido.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Não precisas de olhos para ver o vazio. O eco do silêncio é suficiente para abafar o ruído que te tem roído por dentro. Lembra-te que nunca ninguém se sente só; apenas se ressente (do passado no presente).

O hoje será apenas o ontem do amanhã, por isso pousa a cabeça por um instante e lembra-te que já morreste antes. Não vais esquecer quem foste nem vais conseguir voltar atrás até deixares de ser. Serás um dia esquecido por quem de ti não se irá lembrar e nunca te lembrarão aqueles que não te conheceram.

Não jogas em casa e as regras mudam constantemente. O resultado já foi decidido e não deves preocupar-te. Lembra-te que nada depende de ti; és livre de pensar que és livre (e podes iludir-te como quiseres).

O hoje será apenas o ontem do amanhã, por isso levanta a cabeça e pensa que nada acontece por acaso. Não és o dono do cavalo branco nem estacionas em segunda fila. Serás um dia lembrado por quem nunca foste.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Porque já foi escrito que:

(c) Qui bien faict, exerce une action belle et honeste; qui reçoit, l'exerce utile seulement; or l'utile est de beaucoup moins aimable que l'honneste. L'honneste est stable et permanent, fournissant à celuy qui l'a faict une gratification constante. L'utile se perd et eschappe facilement; et n'en est la memoire ny si fresche ny si douce. Les choses nous sont plus cheres, qui nous ont plus cousté; et il est plus difficile de donner que de prendre.*

(c) Quem faz o bem exerce uma ação bela e honesta; quem recebe, exerce-a útil somente; ora, o útil é muito menos amável que o honesto. O honesto é estável e permanente, proporcionando a quem o fez uma gratificação constante. O útil perde-se e escoa facilmente; e sua lembrança não é nem tão fresca nem tão doce. Mais caras nos são as coisas que nos custaram mais; e é mais difícil dar do que receber.**

*Michel de Montaigne Essais, Livre II, Chapitre VIII – De l'affection des peres aux enfans.
**Tradução de Rosemary Costhek Abílio.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Considerações sobre a cronologia de recentes descobertas:

No dia 13 de Novembro de 2009 a NASA anunciou a descoberta de água na Lua.

Na noite de 14 de Novembro de 2009 acordei com sede.

Para quem acorda com sede durante a noite, a água que a NASA descobriu na Lua pouco interessa.