segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pondera hibernar, dormir para sonhar e acordar só quando tudo estiver bem. Sempre e para sempre, a realidade não pode ser verdade mas talvez seja. Não fui eu quem dormi e não conheço quem acordou.

Foi num sonho bom que os maiores pesadelos foram trocados por carícias e sorrisos. Foi numa manhã de chuva que o sol foi devolvido ao coração enquanto duas mãos se procuravam tristes por não se encontrarem.

Pudera adormecer, sonhar para descansar e não precisar de respirar sozinho. Nunca e nunca mais, a verdade é como o dia que se sonha mas não chega. Não tenho sono mas sinto-me exausto.

Foi num sonho bom que todos os problemas deixaram de o ser. Foi numa noite repetida vezes sem conta que a lua brilhou no escuro; de olhos fechados não vi mas consegui imaginar.

sábado, 7 de maio de 2011

Porque inspira o cadáver que não vê a escuridão que o envolve? E que direito tem o mundo de perturbar o seu descanso eterno? É arrastado para uma morte alternativa que muitos dizem ser vida mas mais não é do que tormento.

Sem lápide, não lhe reconhecem o direito de repouso. Dilacerado pelo hábito, é sangrado sem jeito por quem não o deixa ir. O melhor é um mal menor e sonha um dia não sonhar para poder finalmente descansar. Deseja um dia se esquecer; ser livre.

Comeram-lhe os olhos arrancados das órbitas irregulares e, agora cego como a justiça, não vê as cinzas quando tudo arde. A vida acabou um dia sem deixar recordações numa asfixa eterna de quem sempre quis respirar.

Putrefacto e estupefacto despe o facto e deita-se suspirando; expira um ar rarefeito que inspira futilidades neste mundo pouco perfeito resignado à corrupção.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Era oficial: O arroz declarara guerra às batatas. As ervilhas, inocentes espectadoras, sofreram pesadas baixas que mais tarde se considerou serem meros danos colaterais. Grãos de arroz tentaram desertar mas nenhum sobreviveu: os que resistiram ao prato principal, não resistiram à vingança servida num prato frio de sobremesa.

A aliança no dedo que apontava para o bloco de apontamentos quebrou o silêncio e emudeceu meio mundo; a outra metade, sem cara foi cara a quem sacou o jogo. Especulou-se sem reflectir e o espelho debruçou-se sobre os reflexos apoiando os cotovelos sobre os joelhos.

Suspirou-se sobre a mesa e transpirou-se informação. Exalou-se o fumo de diversos cozinhados e exaltou-se a raiz do cabelo que nem cortado rente deixou de cair no prato. O ambiente era de cortar à faca e nem assim.

Era oficial: As batatas deram o arroz ao inimigo que estava já cheio de si. Hospitais de campo e filas intermináveis nas cantinas que serviam refeições quentes aos sobreviventes. Doentes e entes queridos, mortos, feridos e dentes partidos.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Ainda por ver os verdes olhos que um dia me hão-de ver. Perdidos antes de encontrados, hei-de neles me rever para me perder se assim um dia se entender. Um sorriso desconhecido esmorece as defesas de um espírito que desvanece.

Sem pressa aparece a prece para se ver o que acontece. Tece-se a trama ou trama-se quem não o merece e cedem os joelhos, como os de alguém que perece, quando ela aparece, o sangue aquece e tudo o resto se esquece.

Encanto sublime em qualquer canto se sublima mesmo sem se ouvir o que canta. Delicada subtileza, invasora e desconhecida, brinca e abusa diluindo fronteiras e redesenhando os mapas de um mundo imaginário.

São momentos, são sempre, nunca foram mas hão-de chegar. Falha a razão atropelada pela emoção e consumida pelo coração. Talvez um dia, ou talvez não…

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Vai pela sombra, meu filho, e afasta-te da luz desse sol que derreteu as asas de cera do ambicioso Ícaro. Abriga-te e veste a pele do cordeiro sem nunca seres um lobo mau. Alimenta-te bem mas não comas o capuchinho vermelho nem nenhuma outra menina menor de idade.

Endireita essas costas e olha sempre nos olhos quem cruzar o teu caminho pois serão esses que deverás recordar: serão esses que irão cuspir na tua cara! Tu não cuspirás para o chão nem na sopa que outros te darão. Sentar-te-ás depois das senhoras e pedirás licença para te ergueres…mas não esperarás até ao terceiro dia.

Certamente levarás bofetadas durante o teu percurso e caso queiras evitar que sejam o dobro em número, o melhor conselho que tenho para ti é que não deverás nunca dar a outra face.

No final as contas pagam-se, como aliás tudo nesta vida, e não terás qualquer desconto. No final serás vendido pelas moedas que os outros decidirem que vales e não por aquelas que julgas valer. No final perceberás que a justiça é cega mas também é estúpida.

sábado, 28 de agosto de 2010

English lesson:

The book is on the table.

The cat is under the table.

The bank owns the table, the book and the cat.

domingo, 20 de junho de 2010

Se me perguntarem como foi, eu minto: digo que foi um acidente cortar demasiado rente; digo que não correu bem como eu queria. “Foi-se a barba e ele também. Não levem a mal mas a barba até lhe estava bem.”.

Afinal só nós sabemos a verdade. Só que eu não quero e tu não podes contar. Ninguém vai desconfiar. Ninguém vai saber que há já muito tempo a tinhas perdido por mim…essa cabeça fora do lugar.

Gostava ainda de saber por que motivo duvidam de minha mãe que nunca te fez mal. Tão boa pessoa, Santa mulher. Merece lá o martírio das acusações e da ignomínia. Difamada por gentes de má fama a quem a água da tua concha não matou a sede nem lavou as línguas afiadas.

O meu Oscar Selvagem por uma interpretação irrepreensível; a tua cabeça numa bandeja com uma execução perfeita. Corte limpo: foste João, assino Salomé.