terça-feira, 24 de abril de 2007

Correm azuis do braço para a mão as veias que no pulso evitam a lâmina para se perderem na côncava palma sob as linhas imutáveis da vida, do coração, da cabeça e da fortuna. A quiromancia lê nas linhas passado, presente e futuro que delas escapa já definido – isto dito nas entrelinhas.

Dadas à palmatória, são as linhas que traçam o destino daqueles que nelas crêem. Os outros, os insatisfeitos, que crêem diferente, fazem por mudar o que em destino lhes calhou; e até a lâmina lhes serve para mudar na palma as feições e o traçado original das linhas.

Tidas na palma da mão delas dizem não sermos senhores. Mas as outras linhas, aquelas fora da nossa palma mas ao alcance da nossa mão, são vendidas como barreiras em tom de desafio; para que as ultrapassemos, sejam verticais ou horizontais, se em nós morar a verticalidade natural de indivíduos com horizontes largos.

Alinho anuindo. Olho em frente com um sorriso. Marco passo sem desalinhar mas marco pontos, e no fim da linha destroco a meu favor. Estou no bom caminho; independentemente do que dizem as linhas na palma da mão.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

A queda do morango não resultou em tragédia. Tropeçou na ambiguidade, desprendeu-se de tudo e caiu; mas a sorte não o abandonou e o chantilly amparou-o na gravidade do momento. Nada se partiu e o morango não se magoou.

São as quedas que fortalecem a personalidade que se diz não medir-se aos palmos; mas então, e as quedas? Mais ou menos pequenas para os graves que caindo, mais ou menos pequenos, gravemente vão aspirando o ar sem expiar nem expirar. Será forte a personalidade de quem tende naturalmente para a queda ainda que sem tentação?

Obrigada ao abrigo da luz a tentação vai conspirando sem transpirar; e dessa conspiração nasce a ambiguidade que, em contra-mão numa via de sentido único, sem equívocos, provoca o acidente. O morango, que bem (nos) soube evitar o choque frontal com a ambiguidade, não evitou, no entanto, o tropeção que, do exagero do desvio, gravemente o puxou para o abismo.

Fada de um fado almofadado, fina flor a nata, aqui vestida de chantilly, salvando da perdição os que caem (talvez por ela) em tentação. Ambíguo o fado? Que sorte a do morango que assim sobreviveu para contar.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Três bocejos depois já não podia voltar atrás, superado o ponto sem retorno: estava oficialmente acordado, embora dormindo oficiosamente. Escovo dos dentes os vestígios recentes do café e de hálito fresco talvez o mundo pareça mais claro.

Claro o cinzento do céu, à primeira luz da manhã, que me acompanha enquanto vou pass(e)ando sem ver passar a muita gente que foi de férias. Poupando os passos deslizo até ao destino sem grandes paragens, para um dia de trabalho que parece parado no tempo.

Envelheço sem saber a razão dos bocejos e o ar vai mudando nos mesmos pulmões enquanto esfrego um olho cada vez mais vermelho que denuncia o pólen primaveril.

Quantos foram e serão os muitos dias como este, a Este do Oeste onde outros dias, que seriam diferentes, começariam também antes de escovar os dentes?

sábado, 24 de março de 2007

Talvez por questões de equilíbrio e de manutenção, no final tudo se separa. “Crescei e multiplicai-vos” para que no final tudo se divida? Subtraia-se ao assunto a questão matemática para se evitar a adicção de outros problemas.

Se assim não for, que será do trigo, irremediavelmente minado pelo joio? Lentamente consumido, será que se rala? O grão não parece propenso a grandes aflições; mas rala-se o pão quando do trigo for feita farinha.

O pão vivo que desceu do céu acabou pregado numa cruz. Aparentemente, cá em baixo todos o preferem morto; talvez porque assim seja mais fácil de barrar com manteiga. Subtraiam-se as perversões e as excepções.

Semente, é porque não diz Verdade. E se assim é, melhor nada dizer. Da origem nascem os meios ainda que estes não justifiquem os fins. Inútil o Verbo quando falta a Palavra.

quarta-feira, 14 de março de 2007

O Sol põe-se e cai a noite sobre a grande planície. Raras vezes neste céu se consegue ver qualquer estrela. A culpa é do smog, dizem. Mas sei que estão lá, mesmo sem as ver, as estrelas. Fazem companhia à Lua, independentemente da fase.

Pode estar num quarto, cheia de novas. Porque a Lua tem fases e às vezes eclipsa-se. Pouco importa que se importem quando se eclipsa. Antes esteve e depois estará. Crescente e minguante, saltando de quarto em quarto...são fases.

Vai reflectindo a luz do Sol no lado escuro da Terra enquanto este brilha no outro lado. Invejosas as estrelas mais distantes, que firmemente a acompanham no firmamento nocturno, da luz que ela reflecte não ser a delas.

Influenciando marés, cairá ou não para a Terra? Manter-se-á em órbita e em constante reflexão. Encantos sem cantos, os quartos são dois, outras tantas as outras fases, que se repetem eternamente indiferentes à indiferença.

segunda-feira, 12 de março de 2007

Formas e conteúdo paladinos da definição, indefinida e independentemente da natureza da representação. Será forma de expressão o conteúdo da representação? Existe realmente ou é produto da imaginação? Transcendem-me as transcendências. É ou não.

Justificam-se com ideias, teorias incapazes de aplicação, representações fantásticas que se alheiam da realidade e, ainda assim, existem realmente. Dizem-se portas para o mundo que não o é, de sonhos e sensações que não o são. Alguém encontrou no quarto escuro o gato preto que não estava lá? Eu ainda não encontrei o quarto.

Separa-se a qualidade do objecto a que pertence; separa-se a ideia da sua representação; junta-se sal, duas colheres de pseudo e intelectualiza-se q.b.! Insensíveis aqueles que não percebem?! Dir-se-ia que a insensibilidade vai de mão dada com a falta de senso que, sendo bom se e só se for igual ao meu, deseja abraçar a sensibilidade daqueles que, menos obtusos e sem horizontes largos, não vêem o que todos vêem mas sonham sonhos que os demais não percebem.

Informam que enformam matérias brutas sem conteúdo em artefactos de sensibilidade superior e de senso unicamente bom. Impossível não terem Razão.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

A Terça é gorda; o amanhã é de cinzas. E dissimula-se hoje, com mais ou menos essência, a aparência de amanhã.

Nesta Terça não mora o rosário. Perdem-se as contas. Contam-se as perdas; brilhantes e lantejoulas, plumas e penas; num baile sem máscaras que não pretende esconder o que ninguém deixa de querer ver. E nos olhos sem máscara dançam os costumes.

É hábito o costume, sem fato, de facto. Penas pequenas suaves ao tacto de cor de véspera da Quarta de cinzas.

Contem-se as contas da Quaresma, quarenta até à Páscoa.