domingo, 24 de agosto de 2008

Ao final da tarde, enquanto o sol se põe, há quem se ponha a pensar nas razões que levam o nariz a arrefecer e nos motivos que levam os cães a manter o deles molhado.

Morder o lábio e procurar conter o cinismo não é desafio, é hábito. Não é criticável, é religioso; como para um monge penitente o arrependimento é habitual. Se assim não fosse, olhar-me-iam como que para um animal.

Straight, no chaser; e sem silicone. Quem não gosta, não come. E quem gosta também não. Antes animal que vegetal e já dizia Voltaire em Lettres de Memmius à Cicéron: “J’ai lu, dans un philosophe, que l’homme le plus grossier est au-dessus du plus ingénieux animal. Je n’en convient point. On achèterait beaucoup plus cher un éléphant qu’une foule d’imbeciles.”.

Não é insulto, é normal. Não é moral, é bestial. Vão-se os polegares mas quem quererá saber dos anéis?
A Croácia é um país torto com praias sem areia banhadas por um mar sem ondas. Na Croácia as fronteiras são fronteiras e na culinária incluem-se especialidades bósnias. Da Croácia não se consegue ver a razão que os levou a escolher um brasão axadrezado com quadrados vermelhos e brancos.

A língua nacional foi lavada a seco mas as nódoas não parecem ter saído e por isso usam-se a inglesa e a italiana. Neste país mede-se em metros, pesa-se em quilos e paga-se em Kunas.

Há cidades com nomes curtos e sem vogais onde pode fazer-se snorkelling em águas claras e amenas. Mas também as há com nomes compridos e complicados que fazem delas inacessíveis ainda que geograficamente pouco distantes.

Na Croácia há caminhos de cabras e cabras pelos caminhos. Por lá pode ainda ver-se fumar em locais públicos sem ter que se pagar bilhete e ninguém sabe o que é a ASAE.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Após um longo inverno de ausência termina o período de letargia, acelera-se o ritmo cardíaco e o sangue vai aquecendo nas veias enquanto a Primavera derrete o gelo nas montanhas.

Gota a gota morre o gelo no Tirol, condenado pelo equinócio primaveril e revela-se assim o que o frio do Inverno ocultou.

Não há cangurus (nem avestruzes) na Áustria. Mas enquanto derretem os glaciares alpinos, nos vales pastam as altamente inflamáveis vacas tirolesas que emitem metano nos tempos livres.

No final tudo acabará e, se o metano for a causa, a culpa será das vacas ou dos vegetarianos que recusaram comê-las.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Aqui não é a capital. Aqui é outro mundo. Mais do mesmo? Mais de menos para os demais. Capital é o pecado daqueles que pensam que aqui é a capital. Bastaria apenas abrir os olhos e olhar nos olhos aqueles que não olham e assim não vêem que aqui não é a capital.

Em Milão, durante os últimos anos, aterraram demasiados que por cá estão a mais. Não vêm todos de avião. Mas talvez porque aeroportos nunca sejam a mais, por cá têm três, tantos quantos os que há hoje no continente português.

Não me sinto a mais mas acredito que alguém algum dia se transformará num novo Moisés; receberá de Deus um cajado para guiar o novo povo escravo num novo êxodo em direcção a uma nova terra prometida.

Cinzento era a cor dominante em Milão que agora parece ser apenas preta ou branca. Os contrastes aumentaram e assim morreu a pouca cor que ainda se via nos raros dias de sol. Roma é a capital. SPQR...será por que razão?

domingo, 25 de novembro de 2007

Está tudo no nome. É almejado vê-lo reproduzido e multiplicado, sob luzes mas com uma luz própria que ofusque as demais; que seja único e distinto. E lá vem ele, saído das páginas amarelas, de um calendário religioso ou da cabeça dos pais. Primeiro na pulseira que faz do seu dono o mais bonito de todos os que iguais choram no berçário da maternidade.

Salta para a porta de um quarto em letras grandes e coloridas; é bordado na roupa, para que não haja enganos. Gravado no banco da escola marca território conquistado e permite que se aponte o dedo sem erro.

Escrito pelo dono que com ele se identifica enche folhas brancas com as mesmas letras repetidas até a exaustão ou até que a Bic fique sem tinta. Periodicamente é visto no meio de tantos, mas sempre distinto, seguido de avaliações de nomes bons e nomes maus.

Na vida é como uma sombra ou um espelho. Assinado num cheque para uma compra importante; excelso num diploma que enfeita uma parede relembrando tempos idos. Há quem goste de o ver escrito na porta de um gabinete ou à frente de uma secretária, mas no final vai acabar escrito numa etiqueta pendurada no dedo grande do pé ou a letras douradas no frio mármore fúnebre para que seja esquecido connosco.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Relativamente à relatividade absolutamente nada pode dizer-se que possa considerar-se absoluto. Qualquer juízo está sujeito à subjectividade que lhe confere o sujeito/juiz; este sujeito, sujeito como todos os demais sujeitos, a uma subjectividade intrínseca, nada tem para dizer que possa considerar-se absoluto.

Tudo então é relativamente relativo; sujeito à subjectividade, entenda-se. Julgue-se por exemplo um juízo ajuizado por um ajuizado juíz: é subjectivo, por muito ajuizado que seja o juiz.

Quem pariu a subjectividade? Julgo ter sido o primeiro sujeito, por muito objectivo que fosse. Mas admito juízos diferentes; que se escrevam livros e se encham páginas de juízos ajuizados e distintos.

Hão-de um dia lembrar-se e pintar numa parede quem da subjectividade fez escola e na relatividade encontrou matéria de interesse. E no fim, absolutamente nada terá sido dito que possa considerar-se absoluto.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Num futuro pouco distante, provavelmente antes mesmo do degelo dos pólos e da saída do Madaíl do comando da Federação Portuguesa de Futebol, o ser humano irá perder os dedos; talvez conserve as mãos, mas no lugar dos dedos terá pinças, lasers e outros instrumentos tecnológicos bem mais actuais e úteis do que polegar, indicador e companhia.

Especialização não é espécie de árvore mas é impossível não ver os seus frutos. E a crer verdade que a necessidade faz o engenho e que a sobrevivência depende da adaptação, falta apenas saber o que faz engenheiros e o que estes fazem.

Sem dedos, o ser humano será produzido em série e absorvido pela máquina social. A identidade de cada um vai morar apenas no nome de baptismo atribuído numa oficina e não numa igreja, usando óleo em vez de água.

O orgulho de cada um medir-se-á pelo feedback e reconhecimento dos demais que partilham sorte idêntica e quando, olhando para o lado, for verificado um menor número de prefixos no nome do outro acessório da máquina social.