terça-feira, 26 de maio de 2009

É como se para cá se chegar fosse necessário subir cem escadas sem degraus. É como se para cá se chegar fossem necessários quarenta dias mesmo evitando a etapa da ressurreição porque, como se sabe, a Via Dolorosa fica longe daqui e por cá ninguém carrega cruzes.

O Monte é Branco independentemente das alturas que vão variando conforme as estações e as temperaturas; para que não se pense que por cá impera a monotonia.

Ouve-se o eco do silêncio e procuram-se pontos de referência sem fé na agulha nem no magnetismo do Norte. As vistas são fantásticas mesmo para quem se perde.

Se nunca ninguém manda postais da mais alta cicatriz do velho continente é porque por aqui não há selos; se há música no coração é porque tudo o vento levou e só um idiota se lembra que há lodo no cais.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Lugar comum: Cruzam-se olhares por acidente no meio de tanta gente que vai passando indiferente olhando sempre em frente sem que se enfrente um ou outro ou até mesmo aquele mais indigente.

Sob um olhar oblíquo que julga não terem sido cumpridos todos os deveres reflecte-se a perda de todos os direitos numa vida torta e tormentosa onde as curvas mais sinuosas são também as mais insinuantes.

Difamado por um olhar infame um outro mais ou menos inflamado sem apelo nem agravo sente-se esmifrado e dobrado pelo peso do descrédito desenhado por desígnio da sorte ou por falta dela.

Assim se misturam as cores num infindável mundo de formas fluídas sem que se forme qualquer ideia sólida sobre o mundo cristalizado pelo incessante fluir do tempo para o convencional passado.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Previsivelmente, consolando o hábito e sem tirar-lhe o pó da tradição, a Primavera chegou no dia 21 de Março; à sua chegada, neste ano de 2009, em Milão, não se viam andorinhas: ouviam-se os AC/DC!

Quase duas horas sem pólens ou alergias num recinto completamente esgotado, repleto de gente e cheio de som.

Mas foi bom? Não se trata de saber se foi bom ou não. E agradou? Não se trata de dizer se agradou ou não. Não se trata, porque ou se esteve lá ou não e contado não é o mesmo. Não se trata de acreditar. Nem se trata de contar.

Poucas surpresas? Mais do mesmo? Talvez por isso seja tão especial. Talvez por isso marquem presença indivíduos de todas as idades. Talvez por isso a idade não pese. Nem pesam os hiatos que nunca são verdadeiras interrupções. Afinal, nunca se esteve longe se nunca se deixou de estar presente.

quarta-feira, 18 de março de 2009

Obsceno este coração que vai nu sem preocupações, calejado de tantos tombos e empurrões; são muitas as quedas aparatosas e muitos são os arranhões. Esfola os joelhos e enche-se de vontade de morrer quando cai por tanto correr mas não tem cabeça para perder.

Bate o passo certo e passa certo sem hesitações por aventuras e desventuras preenchidas por alguma gente boa e muitos vilões. Ninguém o cura e ninguém o segura mas todos sabemos que a vida é dura. É pura fantasia a ilusão da alegria. É dura a pura simpatia dos que se vão sem alegria com tão pouca fantasia.

Segue correndo para se sentir vivo e, sem reparar nos remendos, espirra sangue, cospe amarguras e sacode a poeira. Não crê que a queda mais recente tenha sido a derradeira e não se lembra da primeira.

Todas as cicatrizes reforçam a memória e convidam a não esquecer. Não apontam culpados nem se explicam por si. São sinceras: não mentem mas também não dão respostas; insinuam-se passivamente e acumulam-se sem pedir autorização.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Sou um ectoplasma víscido e viciado que desliza para fora da cama deixando vestígios de baba na fronha da almofada. Sou demasiado sólido para a água calcária do chuveiro. À luz da manhã a minha sombra é-me igual, ouve a mesma música e acompanha-me no ritual habitual.

Sou público nos transportes e promíscuo no caos da hora de ponta; encontro refúgio na tecnologia, também ela de ponta. Ninguém vê mas toda a gente aponta, hoje como ontem, vezes sem conta.

Exemplar social desta cultura ocidental considero acidental tudo o que leio no jornal. Trata-se apenas do habitual, usual, casual. Tudo bem, não faz mal. Amanhã pode nem ser igual. Mas nada é banal!

Despego com desapego de um emprego que cedo me deixará no desemprego. Sem medo, qual mancebo, digo que da crise não percebo, não o nego. E amanhã? Amanhã não haverá sossego mas continuarei fiel a este nosso credo.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Pestinha

14 de Maio de 1998 - 19 de Dezembro de 2008

Soube-lhe a cor antes mesmo de o ver. Foi por um anúncio deixado num hipermercado. Era cinzento. Fui vê-lo pouco tempo depois e confirmava-se: era cinzento! Logo percebi que nem sempre caía com as quatro patas no chão e que não era bicho muito equilibrado. O primeiro dia na nova casa passou-o na caixa transportadora aquecida pelo bafo quente de um Zappa muito curioso. Depois saiu da caixa para entrar na vida de todos nós...e para subir armários, roer fios eléctricos, arranhar sofás e comer o plástico das embalagens de Coca-Cola que não devia influir na suavidade do seu pelo cinzento. Teve um vida pacata dividida entre o sono e as refeições. Era um gato com som: respondia ao toque e comentava o que se dizia. Assustava-se facilmente e bastava até um simples espirro para o ver fugir num salto curto a poucos centímetros do chão por causa do excesso de peso. Tinha uma cabeça pequena onde moravam dois olhos em 'V' e dois dentes de vampiro demasiado grandes para espaço tão limitado; escondia-se com o rabo fora e com o resto do corpo também porque bastava esconder o nariz para crer ter-se mimetizado.

O veludo cinzento deixou de amaciar os sofás, já não aguça o nariz nas pernas dos bancos da cozinha e não aquece a cama onde dormia. O Pestinha morreu no dia 19 de Dezembro de 2008 com 10 anos de idade. O Pestinha nunca aprendeu a beber água e a prova disso era a gota que lhe molhava o queixo depois de cada tentativa. Vida demasiadamente curta mas suficientemente longa para deixar muitas saudades.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Precipitação líquida a da água da chuva; precipitações secas as nossas, que transpiram e que se condensam a partir dos vapores da excessiva concentração. Exaspero e desespero de mão dada vêem a chuva cair.

Entropia entupida leva-nos a lavar no bidé o que dantes se lavava na pia ou na bacia. Sem sabão esfregam-se os neurónios incitando processos criativos que nos fazem dançar sem par num equilíbrio precário.

Deslizando suavemente sem provocar grandes vagas deixa-se vago o lugar que nunca foi nosso, neste mundo precipitado onde, por caso ou acaso, precipitámos.

Este é um mundo ao contrário reflectido numa gota de água que nunca existiu. Concentrem-se, condensem-se e cansem-se...mas nunca desistam.