quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Porque já foi escrito que:

(c) Qui bien faict, exerce une action belle et honeste; qui reçoit, l'exerce utile seulement; or l'utile est de beaucoup moins aimable que l'honneste. L'honneste est stable et permanent, fournissant à celuy qui l'a faict une gratification constante. L'utile se perd et eschappe facilement; et n'en est la memoire ny si fresche ny si douce. Les choses nous sont plus cheres, qui nous ont plus cousté; et il est plus difficile de donner que de prendre.*

(c) Quem faz o bem exerce uma ação bela e honesta; quem recebe, exerce-a útil somente; ora, o útil é muito menos amável que o honesto. O honesto é estável e permanente, proporcionando a quem o fez uma gratificação constante. O útil perde-se e escoa facilmente; e sua lembrança não é nem tão fresca nem tão doce. Mais caras nos são as coisas que nos custaram mais; e é mais difícil dar do que receber.**

*Michel de Montaigne Essais, Livre II, Chapitre VIII – De l'affection des peres aux enfans.
**Tradução de Rosemary Costhek Abílio.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Considerações sobre a cronologia de recentes descobertas:

No dia 13 de Novembro de 2009 a NASA anunciou a descoberta de água na Lua.

Na noite de 14 de Novembro de 2009 acordei com sede.

Para quem acorda com sede durante a noite, a água que a NASA descobriu na Lua pouco interessa.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Durante um dia de Verão em Milão, enquanto o calor derrete o alcatrão, a população local opta por evaporar-se para mais tarde chover na planície numa noite de temporal. Em Milão no Verão há quebras de tensão e motins nas ruas provocados pela escassez de água com açúcar.

Imagine-se uma sauna, mas ao ar livre. Imagine-se o inferno, mas sem a parte boa. Imagine-se um termómetro em greve porque o mercúrio foi de férias. A temperatura em Milão durante um dia de Verão não se mede em graus; de nada serve a escala Celsius e pouco se faz da escala Fahrenheit.

Durante um dia de Verão em Milão é comum a miragem e frequente a alucinação. Em Milão no Verão é habitual a morte por insolação. Em Milão no Verão há mosquitos de dia e melgas de noite que em tamanho pouco devem ao de um avião.

Imagine-se que há quem por cá tenha ficado, sem lucidez e com pouca roupa. Imagine-se que não é fruto da imaginação, que circula assim mesmo transpirando proibição a menores. É Milão no Verão.

terça-feira, 23 de junho de 2009

É-se do Porto quando lá se nasce. Passa-se pelo Porto quando por lá se está. E quando assim acontece somos saudados até pelas estátuas: à nossa passagem inclina a cabeça o Vímara Peres, tira o chapéu o Homem do Leme e o Garrett pisca o olho se mais ninguém estiver a olhar.

Voam gaivotas vindas do mar afugentando para bem longe as pombas que viram voar antes delas a calçada do centro da cidade. Rio-me conciso deste Rio com Siza e sem siso; rio-me eu e ri-se toda a gente, ri-se também o granito – o último grito – que vai de moda.

Agoniza o cimbalino que de mão dada com o calão vai morrendo pelas ruas enquanto vão passando turistas que chegaram de avião. Pergunta um paralelo gasto a um iluminado lampião se aparece no mapa ou se quem o calca está condenado à perdição.

Antiga mui nobre sempre leal e invicta cidade em constante renovação. Metamorfose mitológica transforma a serpe em dragão que reduz a cinzas a fénix que renasce eternamente a caminho da perfeição. Amanhã é dia de São João.

terça-feira, 26 de maio de 2009

É como se para cá se chegar fosse necessário subir cem escadas sem degraus. É como se para cá se chegar fossem necessários quarenta dias mesmo evitando a etapa da ressurreição porque, como se sabe, a Via Dolorosa fica longe daqui e por cá ninguém carrega cruzes.

O Monte é Branco independentemente das alturas que vão variando conforme as estações e as temperaturas; para que não se pense que por cá impera a monotonia.

Ouve-se o eco do silêncio e procuram-se pontos de referência sem fé na agulha nem no magnetismo do Norte. As vistas são fantásticas mesmo para quem se perde.

Se nunca ninguém manda postais da mais alta cicatriz do velho continente é porque por aqui não há selos; se há música no coração é porque tudo o vento levou e só um idiota se lembra que há lodo no cais.

quinta-feira, 30 de abril de 2009

Lugar comum: Cruzam-se olhares por acidente no meio de tanta gente que vai passando indiferente olhando sempre em frente sem que se enfrente um ou outro ou até mesmo aquele mais indigente.

Sob um olhar oblíquo que julga não terem sido cumpridos todos os deveres reflecte-se a perda de todos os direitos numa vida torta e tormentosa onde as curvas mais sinuosas são também as mais insinuantes.

Difamado por um olhar infame um outro mais ou menos inflamado sem apelo nem agravo sente-se esmifrado e dobrado pelo peso do descrédito desenhado por desígnio da sorte ou por falta dela.

Assim se misturam as cores num infindável mundo de formas fluídas sem que se forme qualquer ideia sólida sobre o mundo cristalizado pelo incessante fluir do tempo para o convencional passado.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Previsivelmente, consolando o hábito e sem tirar-lhe o pó da tradição, a Primavera chegou no dia 21 de Março; à sua chegada, neste ano de 2009, em Milão, não se viam andorinhas: ouviam-se os AC/DC!

Quase duas horas sem pólens ou alergias num recinto completamente esgotado, repleto de gente e cheio de som.

Mas foi bom? Não se trata de saber se foi bom ou não. E agradou? Não se trata de dizer se agradou ou não. Não se trata, porque ou se esteve lá ou não e contado não é o mesmo. Não se trata de acreditar. Nem se trata de contar.

Poucas surpresas? Mais do mesmo? Talvez por isso seja tão especial. Talvez por isso marquem presença indivíduos de todas as idades. Talvez por isso a idade não pese. Nem pesam os hiatos que nunca são verdadeiras interrupções. Afinal, nunca se esteve longe se nunca se deixou de estar presente.