terça-feira, 20 de abril de 2010

Mata a fome com as mãos. Rouba a cena sem irmãos. Age só pelos cantos e pela sombra. A porta abre-se à oportunidade. Acende a lâmpada sem génio e entra pela calada.

Desenrola os dedos no bolso e dá a mão ao exterior. A novela fala de um novelo velado acima de um cotovelo amputado sem dor e com sangue, nem vê-lo quente ou frio, que escorre até ao coto encharcando o velo.

Dor de cabeça ainda perdida com a perda dos dedos que já não coçam o que devem. Vão encontrar-se à noite em bares escuros e sujos, infestados e infectados onde se enrolarão em brigas com anéis, limas e corta-unhas.

Esvai-se anémico perante o inimigo que sorri a meias salientando as veias azuis antes de virar a página com um corte de papel que escapa ao seguro e fica a pensar na baixa médica que não lhe chegava ao ombro.

quinta-feira, 11 de março de 2010


Calçava sapatos pretos e cruzava as pernas alimentando poses para uma fotografia que nunca seria. Poderia ter sido estrela de cinema com aquele sorriso vazio que derretia o gelo no copo e enchia o olhar.

Via-se ao longe, disfarçada de si mesma, enquanto fazia um filme sem guião. Chegara de avião e não era de cá. Tinha argumentos para roubar a cena e sabia bem que sabia bem. Escondia no bolso um lápis, uma chave e as evidências; por baixo das unhas sem verniz encontravam-se os vestígios da arrogância.

Entre um copo e outro, o lápis servia para escrever uma história sem início e a chave procurava as suas irmãs: faltavam seis e o final continuava fechado. Era tarde mas parecia ser cedo. Estava tudo a fechar mas permanecia tudo em aberto.

Piscava o olho à menina e bebia o sumo daquele fruto a que chamam imaginação. Inclinou a cabeça para baixo e quando levantou o olhar viu-a descruzar as pernas e os sapatos pretos puseram-se a andar.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Naquela noite fria e sem lua havia de tudo um pouco menos e escondia-se tudo atrás de nada. Um cigarro veio à janela e acendeu alguém sem filtro que expirava fumo e gritava a plenos pulmões: "Arde-me o cancro que me vai comendo o papel!".

Numa estrada, para lá dos gritos abafados pelo isolamento, do outro lado da solidão, reflectiam os faróis de um anel fora do dedo que vinha até fora de mão e também fora de tempo. Nunca é tarde para se saber se se chega a tempo. Fora por estar fora? Talvez fosse…

Travaram ao longe e fizeram fumo escondendo assim tudo o que a seguir se passou. Ergueram uma parede temporária que encobriu a conspiração. Meteram os corpos na mala e seguiram para outras paragens. Perdeu-se tempo e nada se encontrou.

O cigarro voltou para dentro e, quando se aconchegava no aperto do maço, ouviu o grito de pneus no asfalto que morreram de seguida sob aquele céu escuro do qual a lua havia fugido.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Não precisas de olhos para ver o vazio. O eco do silêncio é suficiente para abafar o ruído que te tem roído por dentro. Lembra-te que nunca ninguém se sente só; apenas se ressente (do passado no presente).

O hoje será apenas o ontem do amanhã, por isso pousa a cabeça por um instante e lembra-te que já morreste antes. Não vais esquecer quem foste nem vais conseguir voltar atrás até deixares de ser. Serás um dia esquecido por quem de ti não se irá lembrar e nunca te lembrarão aqueles que não te conheceram.

Não jogas em casa e as regras mudam constantemente. O resultado já foi decidido e não deves preocupar-te. Lembra-te que nada depende de ti; és livre de pensar que és livre (e podes iludir-te como quiseres).

O hoje será apenas o ontem do amanhã, por isso levanta a cabeça e pensa que nada acontece por acaso. Não és o dono do cavalo branco nem estacionas em segunda fila. Serás um dia lembrado por quem nunca foste.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Porque já foi escrito que:

(c) Qui bien faict, exerce une action belle et honeste; qui reçoit, l'exerce utile seulement; or l'utile est de beaucoup moins aimable que l'honneste. L'honneste est stable et permanent, fournissant à celuy qui l'a faict une gratification constante. L'utile se perd et eschappe facilement; et n'en est la memoire ny si fresche ny si douce. Les choses nous sont plus cheres, qui nous ont plus cousté; et il est plus difficile de donner que de prendre.*

(c) Quem faz o bem exerce uma ação bela e honesta; quem recebe, exerce-a útil somente; ora, o útil é muito menos amável que o honesto. O honesto é estável e permanente, proporcionando a quem o fez uma gratificação constante. O útil perde-se e escoa facilmente; e sua lembrança não é nem tão fresca nem tão doce. Mais caras nos são as coisas que nos custaram mais; e é mais difícil dar do que receber.**

*Michel de Montaigne Essais, Livre II, Chapitre VIII – De l'affection des peres aux enfans.
**Tradução de Rosemary Costhek Abílio.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Considerações sobre a cronologia de recentes descobertas:

No dia 13 de Novembro de 2009 a NASA anunciou a descoberta de água na Lua.

Na noite de 14 de Novembro de 2009 acordei com sede.

Para quem acorda com sede durante a noite, a água que a NASA descobriu na Lua pouco interessa.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Durante um dia de Verão em Milão, enquanto o calor derrete o alcatrão, a população local opta por evaporar-se para mais tarde chover na planície numa noite de temporal. Em Milão no Verão há quebras de tensão e motins nas ruas provocados pela escassez de água com açúcar.

Imagine-se uma sauna, mas ao ar livre. Imagine-se o inferno, mas sem a parte boa. Imagine-se um termómetro em greve porque o mercúrio foi de férias. A temperatura em Milão durante um dia de Verão não se mede em graus; de nada serve a escala Celsius e pouco se faz da escala Fahrenheit.

Durante um dia de Verão em Milão é comum a miragem e frequente a alucinação. Em Milão no Verão é habitual a morte por insolação. Em Milão no Verão há mosquitos de dia e melgas de noite que em tamanho pouco devem ao de um avião.

Imagine-se que há quem por cá tenha ficado, sem lucidez e com pouca roupa. Imagine-se que não é fruto da imaginação, que circula assim mesmo transpirando proibição a menores. É Milão no Verão.