domingo, 30 de janeiro de 2011

Ainda por ver os verdes olhos que um dia me hão-de ver. Perdidos antes de encontrados, hei-de neles me rever para me perder se assim um dia se entender. Um sorriso desconhecido esmorece as defesas de um espírito que desvanece.

Sem pressa aparece a prece para se ver o que acontece. Tece-se a trama ou trama-se quem não o merece e cedem os joelhos, como os de alguém que perece, quando ela aparece, o sangue aquece e tudo o resto se esquece.

Encanto sublime em qualquer canto se sublima mesmo sem se ouvir o que canta. Delicada subtileza, invasora e desconhecida, brinca e abusa diluindo fronteiras e redesenhando os mapas de um mundo imaginário.

São momentos, são sempre, nunca foram mas hão-de chegar. Falha a razão atropelada pela emoção e consumida pelo coração. Talvez um dia, ou talvez não…

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Vai pela sombra, meu filho, e afasta-te da luz desse sol que derreteu as asas de cera do ambicioso Ícaro. Abriga-te e veste a pele do cordeiro sem nunca seres um lobo mau. Alimenta-te bem mas não comas o capuchinho vermelho nem nenhuma outra menina menor de idade.

Endireita essas costas e olha sempre nos olhos quem cruzar o teu caminho pois serão esses que deverás recordar: serão esses que irão cuspir na tua cara! Tu não cuspirás para o chão nem na sopa que outros te darão. Sentar-te-ás depois das senhoras e pedirás licença para te ergueres…mas não esperarás até ao terceiro dia.

Certamente levarás bofetadas durante o teu percurso e caso queiras evitar que sejam o dobro em número, o melhor conselho que tenho para ti é que não deverás nunca dar a outra face.

No final as contas pagam-se, como aliás tudo nesta vida, e não terás qualquer desconto. No final serás vendido pelas moedas que os outros decidirem que vales e não por aquelas que julgas valer. No final perceberás que a justiça é cega mas também é estúpida.

sábado, 28 de agosto de 2010

English lesson:

The book is on the table.

The cat is under the table.

The bank owns the table, the book and the cat.

domingo, 20 de junho de 2010

Se me perguntarem como foi, eu minto: digo que foi um acidente cortar demasiado rente; digo que não correu bem como eu queria. “Foi-se a barba e ele também. Não levem a mal mas a barba até lhe estava bem.”.

Afinal só nós sabemos a verdade. Só que eu não quero e tu não podes contar. Ninguém vai desconfiar. Ninguém vai saber que há já muito tempo a tinhas perdido por mim…essa cabeça fora do lugar.

Gostava ainda de saber por que motivo duvidam de minha mãe que nunca te fez mal. Tão boa pessoa, Santa mulher. Merece lá o martírio das acusações e da ignomínia. Difamada por gentes de má fama a quem a água da tua concha não matou a sede nem lavou as línguas afiadas.

O meu Oscar Selvagem por uma interpretação irrepreensível; a tua cabeça numa bandeja com uma execução perfeita. Corte limpo: foste João, assino Salomé.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Mata a fome com as mãos. Rouba a cena sem irmãos. Age só pelos cantos e pela sombra. A porta abre-se à oportunidade. Acende a lâmpada sem génio e entra pela calada.

Desenrola os dedos no bolso e dá a mão ao exterior. A novela fala de um novelo velado acima de um cotovelo amputado sem dor e com sangue, nem vê-lo quente ou frio, que escorre até ao coto encharcando o velo.

Dor de cabeça ainda perdida com a perda dos dedos que já não coçam o que devem. Vão encontrar-se à noite em bares escuros e sujos, infestados e infectados onde se enrolarão em brigas com anéis, limas e corta-unhas.

Esvai-se anémico perante o inimigo que sorri a meias salientando as veias azuis antes de virar a página com um corte de papel que escapa ao seguro e fica a pensar na baixa médica que não lhe chegava ao ombro.

quinta-feira, 11 de março de 2010


Calçava sapatos pretos e cruzava as pernas alimentando poses para uma fotografia que nunca seria. Poderia ter sido estrela de cinema com aquele sorriso vazio que derretia o gelo no copo e enchia o olhar.

Via-se ao longe, disfarçada de si mesma, enquanto fazia um filme sem guião. Chegara de avião e não era de cá. Tinha argumentos para roubar a cena e sabia bem que sabia bem. Escondia no bolso um lápis, uma chave e as evidências; por baixo das unhas sem verniz encontravam-se os vestígios da arrogância.

Entre um copo e outro, o lápis servia para escrever uma história sem início e a chave procurava as suas irmãs: faltavam seis e o final continuava fechado. Era tarde mas parecia ser cedo. Estava tudo a fechar mas permanecia tudo em aberto.

Piscava o olho à menina e bebia o sumo daquele fruto a que chamam imaginação. Inclinou a cabeça para baixo e quando levantou o olhar viu-a descruzar as pernas e os sapatos pretos puseram-se a andar.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Naquela noite fria e sem lua havia de tudo um pouco menos e escondia-se tudo atrás de nada. Um cigarro veio à janela e acendeu alguém sem filtro que expirava fumo e gritava a plenos pulmões: "Arde-me o cancro que me vai comendo o papel!".

Numa estrada, para lá dos gritos abafados pelo isolamento, do outro lado da solidão, reflectiam os faróis de um anel fora do dedo que vinha até fora de mão e também fora de tempo. Nunca é tarde para se saber se se chega a tempo. Fora por estar fora? Talvez fosse…

Travaram ao longe e fizeram fumo escondendo assim tudo o que a seguir se passou. Ergueram uma parede temporária que encobriu a conspiração. Meteram os corpos na mala e seguiram para outras paragens. Perdeu-se tempo e nada se encontrou.

O cigarro voltou para dentro e, quando se aconchegava no aperto do maço, ouviu o grito de pneus no asfalto que morreram de seguida sob aquele céu escuro do qual a lua havia fugido.