segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Descendente de uma linhagem crente nos astros e no zodíaco, nasceu num daqueles anos que parecem nunca mais acabar. Pelas contas dos velhos astrólogos, seria já 34 de Dezembro e o novo ano não tinha ainda chegado. Era um ano velho e cansado, sentia-se no ar e demonstrava-o a lentidão com que se sucediam os dias.

Seriam talvez umas 25 horas e 61 minutos; o alinhamento dos astros definiu o seu signo – andorinha com ascendente em pterodáctilo – que indubitavelmente, diziam na altura os velhos astrólogos, auspiciava um futuro extremamente positivo e com grandes sucessos.

Mas aos 7 anos mais parecia uma besta e ainda comia com colher. Todas as tentativas e experiências com garfo e faca haviam sido inúteis revelando resultados verdadeiramente desastrosos.

A família culpava agora o ascendente deste seu descendente dizendo que só assim se explicava o estado primitivo do seu desenvolvimento e do fado ou do destino deixaram de falar, especialmente na hora de jantar.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

"Vai buscar o osso!" Foi atirado para longe e é nosso objectivo buscá-lo. Disso depende a nossa realização pessoal. É assim desde sempre e sempre que cravarmos os dentes no tal osso, outro mais apetecível será atirado antes que o sabor do anterior nos satisfaça.

Alguns de nós têm o faro mais ou menos apurado do que outros condenados a sorte idêntica. Aqueles que depressa encontram o osso, podem crer que apenas vão encontrar mais ossos durante a vida. Os outros encontrarão apenas um osso ou poucos mais. E há casos em que o osso primordial nunca chega a ser encontrado – muito simplesmente porque muitos de nós não têm alma de retriever.

Não é motivo para desespero! Podemos não saber para onde foi atirado nem sequer sentir-lhe o cheiro mas é quase certo que o acaso nos deixará um osso pelo caminho e que o encontraremos...eventualmente.

Não deixem pender a língua, humedeçam regularmente o nariz, mantenham-se bem atentos de olhar fixo no horizonte e continuem a abanar a cauda.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

O Vaticano regressa ao passado e o Latim às missas. Quem quer perceber? Talvez nunca se tenha percebido e por isso pouco muda. A língua pouco importa e por isso aqui ficam três excertos da Santíssima Trindade da Literatura dos nossos dias em língua original:

You cannot separate paranoia from knowledge. The more you know, the more possibilities you see. The more possibilities you see, the more possibilities someone else sees. The more “someones” there are, the more “they” are. It’s a matter of simple math before you realize that They might not like you. (Craig Clevenger, Dermaphoria)

Andy Warhol was wrong. In the future, people won’t be famous for fifteen minutes. No, in the future, everyone will sit next to someone famous for at least fifteen minutes. (Chuck Palahniuk, Rant)

Them supermodels might look great with clothes, but let’s face it: you wouldn’t wanna fuck one of em. Feel like one of them Indian geezers lyin on a bleedin bed of nails. (Irvine Welsh, If You Liked School, You’ll Love Work...)

segunda-feira, 2 de julho de 2007

De pé descalço bebe leite pelo cálcio e pensa o que será da seara de onde veio tal cereal. Cala-se a voz interior que nada tem para calçar enquanto o olhar se dirige para a caixa dos cereais que flutuam no leite sem saber nadar; esperam a sua vez, até que os colhe uma colher que os entrega à boca do destino para que cumpram a sua função.

A crer verdadeira a informação na caixa dos cereais, será um dia um super-herói mas espera não usar lycra nem vestir por fora o que por enquanto se vai vestindo por dentro.

De mão que vai ainda tropeçando nos dedos, alcança o croissant, bom companheiro do café com leite, que interrompe o crescente desejo por algo igualmente...bom! Percebe então por que razão perdeu a cabeça Maria Antonieta e desliga a televisão.

Há-de um dia lutar contra o crescente e combater o Islão. Continuará adepto do croissant até que fique verde a morrer de indigestão.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Bem me quer parecer que, logo pela manhã, a vegetação húmida protesta nos jardins contra a diminuição dos espaços verdes e o aumento da poluição. Espero que não cortem as estradas mas nunca se sabe o que irá acontecer quando os cravos sindicalistas acordam vermelhos de raiva.

Atentos à situação, os girassóis, sem se aperceberem, são arrancados da terra por um indivíduo impressionante que de orelhas tem apenas uma. Ainda assim as reivindicações continuam e os cravos procuram mobilizar todas as flores.

“Do canteiro para o mundo, pétalas caídas nunca mais!” – Palavras de ordem e gritos mudos que teimam em não fazer-se ouvir, vão enchendo de silêncio o ruído da metrópole. Ficam para trás apenas as que menos se importam e as mais pacatas.

Bem-me-quer ou Margarida, na companhia das irmãs, não lê jornais nem paga impostos, mas acorda feliz todas as manhãs.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Acordar para o sonho a meio do sono pode, às vezes, ser tão bom como adormecer num sonho enquanto acordado. Em ambos os casos é possível escapar a todas as crueldades inerentes à nossa condição. É nessas ocasiões que o tempo deixa de existir e melhor me lembro que...

(c) Je ne crains point à dire la tendresse de ma nature si puerile que je ne puis pas bien refuser a mon chien la feste qu’il m’offre hors de saison ou qu’il me demande.*

(c) Não tenho receio de admitir a ternura de minha natureza tão pueril que não consigo recusar a meu cão a festa que me faz fora de hora ou que pede.**

*Michel de Montaigne Essais, Livre II, Chapitre XI – De la cruauté. **Tradução de Rosemary Costhek Abílio.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Sucessões de insucessos são como um céu carregado de compactas nuvens cinzentas que lhe encobrem o azul. Em dias assim acendem-se mais cedo os lampiões que cabisbaixos nunca iluminam senão o chão.

Mudam-se os ventos, para desespero dos cabelos, levando para longe as nuvens e rompendo a cortina cinzenta que censura o azul. Levanta-se alguma poeira que vai escondendo muita coisa, mas os lampiões continuam cabisbaixos e só mais tarde serão ligados para iluminar o chão.

Taciturno de serviço, sem boleia para longe da melancolia, não cumpre horário porque, sem turno nem táxi, é efectivo a tempo inteiro. Demora-se sem saber porquê com simpática apatia de olhos postos no chão.

Não chegam os dedos para contar quantas vezes pensou que mais vale um pterodáctilo na mão do que dois a voar para a extinção.