sábado, 24 de dezembro de 2011

Coração concreto dia amante duro cristal e no céu o laranja complementa o azul que paira sobre o gelo terreno enquanto gotas de água quente batem contra a dura testa que reprova a circulação.

A água que lava da pele os vestígios da experiência faz chorar as paredes e arrasta o tempo enquanto escorre inexoravelmente contrariando os ponteiros do relógio num hemisfério diferente.

A pele seca estala e acorda os vizinhos que preguiçam entre lençóis e almofadas resistindo à invasão de privacidade do obsceno perfume do café.

Num pulso sem punho nem botões aperta-se o relógio no qual pulsam ponteiros que assinalam indiferentes horas que se perdem em minutos diluídos em segundos para no final tudo desaparecer.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Andara fulano na companhia de sicrano e beltrano pelas vias de Murano e Burano em tons pastel sem nata e sem pastel. O papel era o de sempre; o de cicerone em zonas labirínticas sem fauno nem fauna empenhado em não mostrar sinais de claudicar perante ligeiros desacertos e imprevistos menores.

Um olho novo captava as cores e impressionava um filme dos modernos que não é bem um filme; é um sensor sem censura que não se deixa ofuscar filtrando apenas o que interessa e sempre sem pressa.

Correra o dia sem certezas ou preocupações por lagoas e canais sem naufrágios nem rede. Encostara-se a luz à água sem flutuar porque seria inútil resistir e pensar no que isso iria custar; como fazer daquele líquido um vidro incandescente rasgando o horizonte.

Corto não apareceu e as pontes abraçaram paredes próximas onde moravam sombras e se escondiam memórias. Os gatos lambiam as patas com sorrisos cínicos e olhares indiferentes.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Não estar na moda é irrelevante quando não se sabe onde se está. Não reconhecer ninguém dificilmente faz de alguém um seguidor e dificilmente alguém assim será seguido. Tudo, pouco ou nada importa; eu cá ando perdido.

O corte de cabelo pode ser sempre o mesmo enquanto a barba arranha a indiferença. Os óculos de sol filtram para ambos os lados e o que se passa cá dentro não é claro. Basta lavar bem atrás das orelhas e usar meias do mesmo par.

Cruzar a perna é opcional. Falar línguas é giro. Derreter corações pode ser divertido. Brincar com tudo é infantil. A falta de memória contribui para a honestidade. O pão torrado leva manteiga só de um lado.

O relógio serve para ver o tempo passar. Chegar a horas é uma imposição. Podem ser aceites imposições. Há quem goste de negociar. Eu gosto de posições. O tempo passa e eu passo pelo tempo que me adia constantemente.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Nada de modernices; nada de cápsulas. O meu café tem que subir! Não carrego em botões nem faço parte do clube. É para mim um ritual, quase como o de viver alheio a redes sociais neste país vitimista, vítima da excessiva burocracia e asfixiado por políticas de e para gente foleira.

Às vezes vimos à tona para respirar. Às vezes subimos, como o meu café, e enchemos os pulmões de ar que ainda espera ser taxado. Tudo se consome; tudo é taxado; quase todos são comidos e os outros fazem de conta.

A cafeteira não é um tacho. O bóbi da vizinha chama-se lóbi e duas lésbicas já se podem divorciar se houver fome e pelos na cama. Uma Nação, um imposto, uma excepção. É tradição a traição e coçar as partes íntimas em público com a mão.

Sem colher, o açúcar mexe-se com o cabo do garfo. Lamber os dedos é pecado, mas só se forem um solteiro e o outro casado. O café sobe enquanto tudo se afunda e nenhuma cápsula nos pode valer.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Pondera hibernar, dormir para sonhar e acordar só quando tudo estiver bem. Sempre e para sempre, a realidade não pode ser verdade mas talvez seja. Não fui eu quem dormi e não conheço quem acordou.

Foi num sonho bom que os maiores pesadelos foram trocados por carícias e sorrisos. Foi numa manhã de chuva que o sol foi devolvido ao coração enquanto duas mãos se procuravam tristes por não se encontrarem.

Pudera adormecer, sonhar para descansar e não precisar de respirar sozinho. Nunca e nunca mais, a verdade é como o dia que se sonha mas não chega. Não tenho sono mas sinto-me exausto.

Foi num sonho bom que todos os problemas deixaram de o ser. Foi numa noite repetida vezes sem conta que a lua brilhou no escuro; de olhos fechados não vi mas consegui imaginar.

sábado, 7 de maio de 2011

Porque inspira o cadáver que não vê a escuridão que o envolve? E que direito tem o mundo de perturbar o seu descanso eterno? É arrastado para uma morte alternativa que muitos dizem ser vida mas mais não é do que tormento.

Sem lápide, não lhe reconhecem o direito de repouso. Dilacerado pelo hábito, é sangrado sem jeito por quem não o deixa ir. O melhor é um mal menor e sonha um dia não sonhar para poder finalmente descansar. Deseja um dia se esquecer; ser livre.

Comeram-lhe os olhos arrancados das órbitas irregulares e, agora cego como a justiça, não vê as cinzas quando tudo arde. A vida acabou um dia sem deixar recordações numa asfixa eterna de quem sempre quis respirar.

Putrefacto e estupefacto despe o facto e deita-se suspirando; expira um ar rarefeito que inspira futilidades neste mundo pouco perfeito resignado à corrupção.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Era oficial: O arroz declarara guerra às batatas. As ervilhas, inocentes espectadoras, sofreram pesadas baixas que mais tarde se considerou serem meros danos colaterais. Grãos de arroz tentaram desertar mas nenhum sobreviveu: os que resistiram ao prato principal, não resistiram à vingança servida num prato frio de sobremesa.

A aliança no dedo que apontava para o bloco de apontamentos quebrou o silêncio e emudeceu meio mundo; a outra metade, sem cara foi cara a quem sacou o jogo. Especulou-se sem reflectir e o espelho debruçou-se sobre os reflexos apoiando os cotovelos sobre os joelhos.

Suspirou-se sobre a mesa e transpirou-se informação. Exalou-se o fumo de diversos cozinhados e exaltou-se a raiz do cabelo que nem cortado rente deixou de cair no prato. O ambiente era de cortar à faca e nem assim.

Era oficial: As batatas deram o arroz ao inimigo que estava já cheio de si. Hospitais de campo e filas intermináveis nas cantinas que serviam refeições quentes aos sobreviventes. Doentes e entes queridos, mortos, feridos e dentes partidos.