sábado, 6 de abril de 2013

Selva urbana iluminada por ovnis e uivam lobisomens sem lua. O colarinho manchado dos vampiros não passa despercebido ao distinto canino que chupa o essencial.
 
São ruivas na aparência. Aparecem sempre as ruivas. De noite todos os gatos são pardos e as ruivas não; trincam lábios e bebem cocktails cor de sangue enquanto escorrem dedos finos por pescoços pálidos.
 
Rezam as lendas que as rendas levam a melhor mas os baixos vibram e a luz treme em locais cheios que transpiram o calor. O horror, o horror.
 
A conta em balas de prata e dentes de alho, semáforos intermitentes e a jugular pela vista está morta.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

© 1980 - Alice Cooper - Flush The Fashion -
 
Em 1980 Alice poderá ter caído na toca do coelho ou atravessado para o outro lado do espelho mas não terá sido por correr atrás de um coelho branco nem por atraso.

Talvez esta Alice não seja essa Alice e por isso talvez isto não seja um chá de loucos nem haja motivo para que se cortem cabeças.
 
Fala, fala e diz que somos todos clones; fala da dor, do medo do mundo real e da cura para esse e para outros males; fala de infecções e de outros factos sinistros. Esta Alice demente fala-nos da dança da morte e de títulos nos jornais.

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Parece-me o hemisfério errado e o avesso do meu mundo virado ao contrário.
 
Se fosse ave seria rara e boa mas não voa nem sabe quanto destoa enquanto os mais atentos ficam à toa.
 
Com pena a corda estica e se partir pouco fica.
 
Perco o Norte e sinto a morte porque imper-a-dor.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Faz de mim um gajo cansado o meu sangue pesado que sinto circular. No mundo onde abundam as arestas tudo se passa enquanto eu espero um dia ver a revolução sentado. Cessa a pressa e a cabeça pesa se for obrigado a escolher o lado.

Nada arrumado e despejo o bolso enquanto esvazio os pulmões. Coçava a cicatriz, mordia o lábio e trincava o tremoço se o fosso fosse a fossa para o repouso do osso. Há sempre quem nos ache mais magros mesmo se nunca nos viram mais gordos.

Tudo se resume ao fluir do ser enquanto tudo se esvai; os dias sucedem-se e os momentos repetem-se em francês. A câmara já não é lenta e o mundo tornou-se pay-per-view. Era analógica mas tornou-se digital.

Se acaba de começar, já estou atrasado. Não paguei bilhete nem sei do que falam quando me perguntam se deixei o carro mal estacionado. Nenhum lugar é o meu, estou aqui só porque fui empurrado.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012


O patinho é feio mas comeu a laranja. À roda dela metendo a pata na poça meteu-se o pato armado em galo. A coisa ficou feia e à laranja foi dito que não é bonito andar a enganar. O legítimo engasga-se um pouco e ameaça cortar os pulsos ou o pescoço do pato e furar-lhe os pneus.

"Meu Deus!" - grita a laranja podre de vergonha por se saberem os seus podres. Um acólito alcoólico sai em sua defesa como um prosélito a quem serviram um prosecco num prosaico copo de plástico. Esclera a fruta galdéria antes de afundar a galera.

Já chegamos ao Porto? De braços cruzados as milhas medem-se aos pés e os grãos de milho explodem contra a cute para fora do pacote. O mar salgado em copo médio engole embalagens de especiarias mantendo tanto a fama como o aroma sem matar a fome.

Um passageiro anónimo assiste a tudo sem interferir. Guarda fotografias, comentários e juízos. Sorri por metade mas com vontade, guardando a ironia até chegar à cidade. O patinho é feio mas o citrinos são do pior.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Coração concreto dia amante duro cristal e no céu o laranja complementa o azul que paira sobre o gelo terreno enquanto gotas de água quente batem contra a dura testa que reprova a circulação.

A água que lava da pele os vestígios da experiência faz chorar as paredes e arrasta o tempo enquanto escorre inexoravelmente contrariando os ponteiros do relógio num hemisfério diferente.

A pele seca estala e acorda os vizinhos que preguiçam entre lençóis e almofadas resistindo à invasão de privacidade do obsceno perfume do café.

Num pulso sem punho nem botões aperta-se o relógio no qual pulsam ponteiros que assinalam indiferentes horas que se perdem em minutos diluídos em segundos para no final tudo desaparecer.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Andara fulano na companhia de sicrano e beltrano pelas vias de Murano e Burano em tons pastel sem nata e sem pastel. O papel era o de sempre; o de cicerone em zonas labirínticas sem fauno nem fauna empenhado em não mostrar sinais de claudicar perante ligeiros desacertos e imprevistos menores.

Um olho novo captava as cores e impressionava um filme dos modernos que não é bem um filme; é um sensor sem censura que não se deixa ofuscar filtrando apenas o que interessa e sempre sem pressa.

Correra o dia sem certezas ou preocupações por lagoas e canais sem naufrágios nem rede. Encostara-se a luz à água sem flutuar porque seria inútil resistir e pensar no que isso iria custar; como fazer daquele líquido um vidro incandescente rasgando o horizonte.

Corto não apareceu e as pontes abraçaram paredes próximas onde moravam sombras e se escondiam memórias. Os gatos lambiam as patas com sorrisos cínicos e olhares indiferentes.