segunda-feira, 11 de junho de 2007

Sucessões de insucessos são como um céu carregado de compactas nuvens cinzentas que lhe encobrem o azul. Em dias assim acendem-se mais cedo os lampiões que cabisbaixos nunca iluminam senão o chão.

Mudam-se os ventos, para desespero dos cabelos, levando para longe as nuvens e rompendo a cortina cinzenta que censura o azul. Levanta-se alguma poeira que vai escondendo muita coisa, mas os lampiões continuam cabisbaixos e só mais tarde serão ligados para iluminar o chão.

Taciturno de serviço, sem boleia para longe da melancolia, não cumpre horário porque, sem turno nem táxi, é efectivo a tempo inteiro. Demora-se sem saber porquê com simpática apatia de olhos postos no chão.

Não chegam os dedos para contar quantas vezes pensou que mais vale um pterodáctilo na mão do que dois a voar para a extinção.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Zappa

28 de Agosto de 1993 – 18 de Maio de 2007

Era preto. Quatro patas almofadadas e nariz de borracha. Duas orelhas grandes que dançavam com o vento quando corria ou quando não percebia o que ouvia. Um língua rosa que pingava e crescia com a sede e com o calor. Os olhos, que nem sempre se viam, brilhavam atrás de isolados pêlos brancos que denunciavam a direcção do seu olhar, mesmo quando fingia dormir de queixo pousado no chão. Fazia um som particular quando, de queixo pousado no chão, arranjava os bigodes com a língua. Adorava dormir e fazia-o nas posições e nos sítios mais estranhos. Quando sonhava entrava num mundo só dele e que nunca ninguém conheceu. Por vezes parecia correr porque mexia as patas, outras vezes parecia em perigo e aflito porque chorava enquanto abria os dedos com aquelas almofadas pretas e ásperas de tão gastas por corridas verdadeiras. Outras vezes, aqueles sonhos deviam fazê-lo regressar ao passado porque parecia mamar fazendo estalar a língua na boca entreaberta. Não gostava de estar sozinho e não gostava de ver as pessoas longe umas das outras. Farejava por baixo da porta do meu quarto para se certificar de que eu estava lá, e o bater das unhas no chão anunciava as suas mudanças de posição dentro de casa. Adorava coçar as costas na carpete da sala em momentos de alegria quase diários que o deixavam como um trapo com as orelhas viradas ao contrário e com o pêlo completamente desalinhado.

O Zappa era isto e muito mais. O Zappa era o meu cão. O Zappa morreu no dia 18 de Maio de 2007 com 13 anos de idade. O Zappa não sentirá a minha falta mas eu certamente sentirei a sua falta para sempre.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

São gotas que viajam no vidro da janela. Pesam, frias e verticais, sobre a direcção a seguir na superfície transparente: concordam e decididas vão descendo. O vidro nem comenta o sucedido com a janela fechada.

Ninguém se pergunta de onde vêm nem para onde vão; talvez apenas se outras hão-de vir. Espreitando pela cortina que não é de ferro, pasma-se com o que do outro lado se plasma, quem vê o que transpira sem querer e sem saber.

Raios! Deste lado nada se plasma e a luz não é muita. Impermeável o pensamento cristalino de que aquelas gotas nunca chegarão ao destino; perder-se-ão pelo caminho sem pedir indicações.

Tudo se passa lá fora. Cá dentro muito é diferente mas pouco transparece. Vá-se lá saber se alguém espreita. Plasme-se.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Morrer a morte certa talvez seja certo e indubitável até. Esse fim, constante e permanente, incondicional da nossa condição, oferece-nos o direito e o dever de expirar validamente completando o ciclo.

Ceifada foi-se a vida pela foice, interrompida extinguiu-se. Chega assim o fim de linha para todos os passageiros, que deixam vagos os seus lugares, sem que a idade lhes revele qual a doença da vida; velha como o tempo.

Cavado o fosso e revolvida a terra para cúmulo do túmulo onde descansará a ausência. Faz falta não fazer falta, não estar presente e ser apenas passado sem futuro.

Prece. Sem pressas perece-se, assim parece; e decompõe-se a matéria, consome-se a carne deixando os ossos ao ócio de um descanso eterno. Para sempre ou nunca mais.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Correm azuis do braço para a mão as veias que no pulso evitam a lâmina para se perderem na côncava palma sob as linhas imutáveis da vida, do coração, da cabeça e da fortuna. A quiromancia lê nas linhas passado, presente e futuro que delas escapa já definido – isto dito nas entrelinhas.

Dadas à palmatória, são as linhas que traçam o destino daqueles que nelas crêem. Os outros, os insatisfeitos, que crêem diferente, fazem por mudar o que em destino lhes calhou; e até a lâmina lhes serve para mudar na palma as feições e o traçado original das linhas.

Tidas na palma da mão delas dizem não sermos senhores. Mas as outras linhas, aquelas fora da nossa palma mas ao alcance da nossa mão, são vendidas como barreiras em tom de desafio; para que as ultrapassemos, sejam verticais ou horizontais, se em nós morar a verticalidade natural de indivíduos com horizontes largos.

Alinho anuindo. Olho em frente com um sorriso. Marco passo sem desalinhar mas marco pontos, e no fim da linha destroco a meu favor. Estou no bom caminho; independentemente do que dizem as linhas na palma da mão.

sexta-feira, 13 de abril de 2007

A queda do morango não resultou em tragédia. Tropeçou na ambiguidade, desprendeu-se de tudo e caiu; mas a sorte não o abandonou e o chantilly amparou-o na gravidade do momento. Nada se partiu e o morango não se magoou.

São as quedas que fortalecem a personalidade que se diz não medir-se aos palmos; mas então, e as quedas? Mais ou menos pequenas para os graves que caindo, mais ou menos pequenos, gravemente vão aspirando o ar sem expiar nem expirar. Será forte a personalidade de quem tende naturalmente para a queda ainda que sem tentação?

Obrigada ao abrigo da luz a tentação vai conspirando sem transpirar; e dessa conspiração nasce a ambiguidade que, em contra-mão numa via de sentido único, sem equívocos, provoca o acidente. O morango, que bem (nos) soube evitar o choque frontal com a ambiguidade, não evitou, no entanto, o tropeção que, do exagero do desvio, gravemente o puxou para o abismo.

Fada de um fado almofadado, fina flor a nata, aqui vestida de chantilly, salvando da perdição os que caem (talvez por ela) em tentação. Ambíguo o fado? Que sorte a do morango que assim sobreviveu para contar.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Três bocejos depois já não podia voltar atrás, superado o ponto sem retorno: estava oficialmente acordado, embora dormindo oficiosamente. Escovo dos dentes os vestígios recentes do café e de hálito fresco talvez o mundo pareça mais claro.

Claro o cinzento do céu, à primeira luz da manhã, que me acompanha enquanto vou pass(e)ando sem ver passar a muita gente que foi de férias. Poupando os passos deslizo até ao destino sem grandes paragens, para um dia de trabalho que parece parado no tempo.

Envelheço sem saber a razão dos bocejos e o ar vai mudando nos mesmos pulmões enquanto esfrego um olho cada vez mais vermelho que denuncia o pólen primaveril.

Quantos foram e serão os muitos dias como este, a Este do Oeste onde outros dias, que seriam diferentes, começariam também antes de escovar os dentes?