segunda-feira, 2 de julho de 2007

De pé descalço bebe leite pelo cálcio e pensa o que será da seara de onde veio tal cereal. Cala-se a voz interior que nada tem para calçar enquanto o olhar se dirige para a caixa dos cereais que flutuam no leite sem saber nadar; esperam a sua vez, até que os colhe uma colher que os entrega à boca do destino para que cumpram a sua função.

A crer verdadeira a informação na caixa dos cereais, será um dia um super-herói mas espera não usar lycra nem vestir por fora o que por enquanto se vai vestindo por dentro.

De mão que vai ainda tropeçando nos dedos, alcança o croissant, bom companheiro do café com leite, que interrompe o crescente desejo por algo igualmente...bom! Percebe então por que razão perdeu a cabeça Maria Antonieta e desliga a televisão.

Há-de um dia lutar contra o crescente e combater o Islão. Continuará adepto do croissant até que fique verde a morrer de indigestão.

quarta-feira, 20 de junho de 2007

Bem me quer parecer que, logo pela manhã, a vegetação húmida protesta nos jardins contra a diminuição dos espaços verdes e o aumento da poluição. Espero que não cortem as estradas mas nunca se sabe o que irá acontecer quando os cravos sindicalistas acordam vermelhos de raiva.

Atentos à situação, os girassóis, sem se aperceberem, são arrancados da terra por um indivíduo impressionante que de orelhas tem apenas uma. Ainda assim as reivindicações continuam e os cravos procuram mobilizar todas as flores.

“Do canteiro para o mundo, pétalas caídas nunca mais!” – Palavras de ordem e gritos mudos que teimam em não fazer-se ouvir, vão enchendo de silêncio o ruído da metrópole. Ficam para trás apenas as que menos se importam e as mais pacatas.

Bem-me-quer ou Margarida, na companhia das irmãs, não lê jornais nem paga impostos, mas acorda feliz todas as manhãs.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Acordar para o sonho a meio do sono pode, às vezes, ser tão bom como adormecer num sonho enquanto acordado. Em ambos os casos é possível escapar a todas as crueldades inerentes à nossa condição. É nessas ocasiões que o tempo deixa de existir e melhor me lembro que...

(c) Je ne crains point à dire la tendresse de ma nature si puerile que je ne puis pas bien refuser a mon chien la feste qu’il m’offre hors de saison ou qu’il me demande.*

(c) Não tenho receio de admitir a ternura de minha natureza tão pueril que não consigo recusar a meu cão a festa que me faz fora de hora ou que pede.**

*Michel de Montaigne Essais, Livre II, Chapitre XI – De la cruauté. **Tradução de Rosemary Costhek Abílio.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Sucessões de insucessos são como um céu carregado de compactas nuvens cinzentas que lhe encobrem o azul. Em dias assim acendem-se mais cedo os lampiões que cabisbaixos nunca iluminam senão o chão.

Mudam-se os ventos, para desespero dos cabelos, levando para longe as nuvens e rompendo a cortina cinzenta que censura o azul. Levanta-se alguma poeira que vai escondendo muita coisa, mas os lampiões continuam cabisbaixos e só mais tarde serão ligados para iluminar o chão.

Taciturno de serviço, sem boleia para longe da melancolia, não cumpre horário porque, sem turno nem táxi, é efectivo a tempo inteiro. Demora-se sem saber porquê com simpática apatia de olhos postos no chão.

Não chegam os dedos para contar quantas vezes pensou que mais vale um pterodáctilo na mão do que dois a voar para a extinção.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Zappa

28 de Agosto de 1993 – 18 de Maio de 2007

Era preto. Quatro patas almofadadas e nariz de borracha. Duas orelhas grandes que dançavam com o vento quando corria ou quando não percebia o que ouvia. Um língua rosa que pingava e crescia com a sede e com o calor. Os olhos, que nem sempre se viam, brilhavam atrás de isolados pêlos brancos que denunciavam a direcção do seu olhar, mesmo quando fingia dormir de queixo pousado no chão. Fazia um som particular quando, de queixo pousado no chão, arranjava os bigodes com a língua. Adorava dormir e fazia-o nas posições e nos sítios mais estranhos. Quando sonhava entrava num mundo só dele e que nunca ninguém conheceu. Por vezes parecia correr porque mexia as patas, outras vezes parecia em perigo e aflito porque chorava enquanto abria os dedos com aquelas almofadas pretas e ásperas de tão gastas por corridas verdadeiras. Outras vezes, aqueles sonhos deviam fazê-lo regressar ao passado porque parecia mamar fazendo estalar a língua na boca entreaberta. Não gostava de estar sozinho e não gostava de ver as pessoas longe umas das outras. Farejava por baixo da porta do meu quarto para se certificar de que eu estava lá, e o bater das unhas no chão anunciava as suas mudanças de posição dentro de casa. Adorava coçar as costas na carpete da sala em momentos de alegria quase diários que o deixavam como um trapo com as orelhas viradas ao contrário e com o pêlo completamente desalinhado.

O Zappa era isto e muito mais. O Zappa era o meu cão. O Zappa morreu no dia 18 de Maio de 2007 com 13 anos de idade. O Zappa não sentirá a minha falta mas eu certamente sentirei a sua falta para sempre.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

São gotas que viajam no vidro da janela. Pesam, frias e verticais, sobre a direcção a seguir na superfície transparente: concordam e decididas vão descendo. O vidro nem comenta o sucedido com a janela fechada.

Ninguém se pergunta de onde vêm nem para onde vão; talvez apenas se outras hão-de vir. Espreitando pela cortina que não é de ferro, pasma-se com o que do outro lado se plasma, quem vê o que transpira sem querer e sem saber.

Raios! Deste lado nada se plasma e a luz não é muita. Impermeável o pensamento cristalino de que aquelas gotas nunca chegarão ao destino; perder-se-ão pelo caminho sem pedir indicações.

Tudo se passa lá fora. Cá dentro muito é diferente mas pouco transparece. Vá-se lá saber se alguém espreita. Plasme-se.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Morrer a morte certa talvez seja certo e indubitável até. Esse fim, constante e permanente, incondicional da nossa condição, oferece-nos o direito e o dever de expirar validamente completando o ciclo.

Ceifada foi-se a vida pela foice, interrompida extinguiu-se. Chega assim o fim de linha para todos os passageiros, que deixam vagos os seus lugares, sem que a idade lhes revele qual a doença da vida; velha como o tempo.

Cavado o fosso e revolvida a terra para cúmulo do túmulo onde descansará a ausência. Faz falta não fazer falta, não estar presente e ser apenas passado sem futuro.

Prece. Sem pressas perece-se, assim parece; e decompõe-se a matéria, consome-se a carne deixando os ossos ao ócio de um descanso eterno. Para sempre ou nunca mais.