quarta-feira, 20 de junho de 2007

Bem me quer parecer que, logo pela manhã, a vegetação húmida protesta nos jardins contra a diminuição dos espaços verdes e o aumento da poluição. Espero que não cortem as estradas mas nunca se sabe o que irá acontecer quando os cravos sindicalistas acordam vermelhos de raiva.

Atentos à situação, os girassóis, sem se aperceberem, são arrancados da terra por um indivíduo impressionante que de orelhas tem apenas uma. Ainda assim as reivindicações continuam e os cravos procuram mobilizar todas as flores.

“Do canteiro para o mundo, pétalas caídas nunca mais!” – Palavras de ordem e gritos mudos que teimam em não fazer-se ouvir, vão enchendo de silêncio o ruído da metrópole. Ficam para trás apenas as que menos se importam e as mais pacatas.

Bem-me-quer ou Margarida, na companhia das irmãs, não lê jornais nem paga impostos, mas acorda feliz todas as manhãs.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Acordar para o sonho a meio do sono pode, às vezes, ser tão bom como adormecer num sonho enquanto acordado. Em ambos os casos é possível escapar a todas as crueldades inerentes à nossa condição. É nessas ocasiões que o tempo deixa de existir e melhor me lembro que...

(c) Je ne crains point à dire la tendresse de ma nature si puerile que je ne puis pas bien refuser a mon chien la feste qu’il m’offre hors de saison ou qu’il me demande.*

(c) Não tenho receio de admitir a ternura de minha natureza tão pueril que não consigo recusar a meu cão a festa que me faz fora de hora ou que pede.**

*Michel de Montaigne Essais, Livre II, Chapitre XI – De la cruauté. **Tradução de Rosemary Costhek Abílio.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Sucessões de insucessos são como um céu carregado de compactas nuvens cinzentas que lhe encobrem o azul. Em dias assim acendem-se mais cedo os lampiões que cabisbaixos nunca iluminam senão o chão.

Mudam-se os ventos, para desespero dos cabelos, levando para longe as nuvens e rompendo a cortina cinzenta que censura o azul. Levanta-se alguma poeira que vai escondendo muita coisa, mas os lampiões continuam cabisbaixos e só mais tarde serão ligados para iluminar o chão.

Taciturno de serviço, sem boleia para longe da melancolia, não cumpre horário porque, sem turno nem táxi, é efectivo a tempo inteiro. Demora-se sem saber porquê com simpática apatia de olhos postos no chão.

Não chegam os dedos para contar quantas vezes pensou que mais vale um pterodáctilo na mão do que dois a voar para a extinção.

segunda-feira, 21 de maio de 2007

Zappa

28 de Agosto de 1993 – 18 de Maio de 2007

Era preto. Quatro patas almofadadas e nariz de borracha. Duas orelhas grandes que dançavam com o vento quando corria ou quando não percebia o que ouvia. Um língua rosa que pingava e crescia com a sede e com o calor. Os olhos, que nem sempre se viam, brilhavam atrás de isolados pêlos brancos que denunciavam a direcção do seu olhar, mesmo quando fingia dormir de queixo pousado no chão. Fazia um som particular quando, de queixo pousado no chão, arranjava os bigodes com a língua. Adorava dormir e fazia-o nas posições e nos sítios mais estranhos. Quando sonhava entrava num mundo só dele e que nunca ninguém conheceu. Por vezes parecia correr porque mexia as patas, outras vezes parecia em perigo e aflito porque chorava enquanto abria os dedos com aquelas almofadas pretas e ásperas de tão gastas por corridas verdadeiras. Outras vezes, aqueles sonhos deviam fazê-lo regressar ao passado porque parecia mamar fazendo estalar a língua na boca entreaberta. Não gostava de estar sozinho e não gostava de ver as pessoas longe umas das outras. Farejava por baixo da porta do meu quarto para se certificar de que eu estava lá, e o bater das unhas no chão anunciava as suas mudanças de posição dentro de casa. Adorava coçar as costas na carpete da sala em momentos de alegria quase diários que o deixavam como um trapo com as orelhas viradas ao contrário e com o pêlo completamente desalinhado.

O Zappa era isto e muito mais. O Zappa era o meu cão. O Zappa morreu no dia 18 de Maio de 2007 com 13 anos de idade. O Zappa não sentirá a minha falta mas eu certamente sentirei a sua falta para sempre.

quarta-feira, 16 de maio de 2007

São gotas que viajam no vidro da janela. Pesam, frias e verticais, sobre a direcção a seguir na superfície transparente: concordam e decididas vão descendo. O vidro nem comenta o sucedido com a janela fechada.

Ninguém se pergunta de onde vêm nem para onde vão; talvez apenas se outras hão-de vir. Espreitando pela cortina que não é de ferro, pasma-se com o que do outro lado se plasma, quem vê o que transpira sem querer e sem saber.

Raios! Deste lado nada se plasma e a luz não é muita. Impermeável o pensamento cristalino de que aquelas gotas nunca chegarão ao destino; perder-se-ão pelo caminho sem pedir indicações.

Tudo se passa lá fora. Cá dentro muito é diferente mas pouco transparece. Vá-se lá saber se alguém espreita. Plasme-se.

sexta-feira, 4 de maio de 2007

Morrer a morte certa talvez seja certo e indubitável até. Esse fim, constante e permanente, incondicional da nossa condição, oferece-nos o direito e o dever de expirar validamente completando o ciclo.

Ceifada foi-se a vida pela foice, interrompida extinguiu-se. Chega assim o fim de linha para todos os passageiros, que deixam vagos os seus lugares, sem que a idade lhes revele qual a doença da vida; velha como o tempo.

Cavado o fosso e revolvida a terra para cúmulo do túmulo onde descansará a ausência. Faz falta não fazer falta, não estar presente e ser apenas passado sem futuro.

Prece. Sem pressas perece-se, assim parece; e decompõe-se a matéria, consome-se a carne deixando os ossos ao ócio de um descanso eterno. Para sempre ou nunca mais.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Correm azuis do braço para a mão as veias que no pulso evitam a lâmina para se perderem na côncava palma sob as linhas imutáveis da vida, do coração, da cabeça e da fortuna. A quiromancia lê nas linhas passado, presente e futuro que delas escapa já definido – isto dito nas entrelinhas.

Dadas à palmatória, são as linhas que traçam o destino daqueles que nelas crêem. Os outros, os insatisfeitos, que crêem diferente, fazem por mudar o que em destino lhes calhou; e até a lâmina lhes serve para mudar na palma as feições e o traçado original das linhas.

Tidas na palma da mão delas dizem não sermos senhores. Mas as outras linhas, aquelas fora da nossa palma mas ao alcance da nossa mão, são vendidas como barreiras em tom de desafio; para que as ultrapassemos, sejam verticais ou horizontais, se em nós morar a verticalidade natural de indivíduos com horizontes largos.

Alinho anuindo. Olho em frente com um sorriso. Marco passo sem desalinhar mas marco pontos, e no fim da linha destroco a meu favor. Estou no bom caminho; independentemente do que dizem as linhas na palma da mão.