quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Num futuro pouco distante, provavelmente antes mesmo do degelo dos pólos e da saída do Madaíl do comando da Federação Portuguesa de Futebol, o ser humano irá perder os dedos; talvez conserve as mãos, mas no lugar dos dedos terá pinças, lasers e outros instrumentos tecnológicos bem mais actuais e úteis do que polegar, indicador e companhia.

Especialização não é espécie de árvore mas é impossível não ver os seus frutos. E a crer verdade que a necessidade faz o engenho e que a sobrevivência depende da adaptação, falta apenas saber o que faz engenheiros e o que estes fazem.

Sem dedos, o ser humano será produzido em série e absorvido pela máquina social. A identidade de cada um vai morar apenas no nome de baptismo atribuído numa oficina e não numa igreja, usando óleo em vez de água.

O orgulho de cada um medir-se-á pelo feedback e reconhecimento dos demais que partilham sorte idêntica e quando, olhando para o lado, for verificado um menor número de prefixos no nome do outro acessório da máquina social.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Durante a recente estadia na capital húngara, aproveitei para visitar o Szoborpark (Parque das estátuas), também conhecido como Memento Park. Os panfletos de propaganda anunciam este como o local ideal para se observarem os “restos da ditadura comunista”; lá podemos encontrar as estátuas impostas pelo regime comunista e retiradas das ruas após o seu fim.

Dizem não ser um museu sobre o comunismo mas sim sobre a queda do comunismo. Há diferentes formas de nostalgia, de lembrar e de esquecer.

Com foice para abrir a porta do Trabant de plástico e martelo para romper a cortina de ferro, hoje já não é assim porque se come pato em Varsóvia e o vermelho já não é moda.

Pesa o realismo socialista em cada uma daquelas estátuas gigantescas que agora se fazem companhia, sem o mesmo significado de outrora, longe do centro mas ainda assim disponíveis para sessões fotográficas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Voando alto a baixo custo pelo céu da Europa, da terra média a Budapeste são noventa minutos de alguma turbulência. Mas depois de esperar pelas malas e de as enfiar num taxi magiar que viaja a uma velocidade aproximada à da luz, é impossível ter medo de voar.

O Danúbio não o vi azul mas castanho; saído das margens e arrastando troncos de grandes árvores que às vezes apontavam ao casco dos barcos cheios de turistas e faziam dos cruzeiros no grande rio uma actividade aparentemente emocionante.

De Buda vê-se Peste do outro lado do rio aqui atravessado por nove pontes. No horizonte impõe-se o edifício do parlamento parcialmente em restauro e ladeado por torres de igrejas várias para todo o tipo de crenças.

Nas margens do Danúbio (quando a máquina fotográfica se recusou momentaneamente a exercer a sua função), não me sentei nem chorei mas, e porque nada acontece por acaso, vi Cristo numa escavadora parada nos semáforos. Aleluia.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O que não falta no nosso mundo são divisões; habitat perfeito para os que, como eu, gostam de discriminar. Podemos então dizer que este mundo se divide entre aqueles que gostam de Coca-Cola e aqueles que gostam de Pepsi, entre aqueles que acham que foi penalty e aqueles que acham que “nem lhe tocou” e, obviamente, entre aqueles que acreditam em Deus e aqueles que são obrigados a acreditar em Deus.

“Que Deus te acompanhe!” é o suficiente para nos apercebermos que é verdadeiramente impossível estar-se um momento sozinho. Bom seria se Ele ajudasse lá por casa; enfim, que abandonasse a confortável e conveniente indiferença que O caracteriza e viesse, de vez em quando, lavar a louça, aspirar o pó ou até mesmo limpar os vidros das janelas. Podia ainda demonstrar alguma gratidão pela devoção incondicional dos mais idosos e ajudá-los a apertar os cordões dos sapatos, descer escadas e fazer-lhes companhia enquanto esperam horas a fio nos centros de saúde.

Nietzsche disse que Deus morreu; eu confesso que não sei. Admito que seja uma entidade suprema, causa de todas as causas, etc., mas, provavelmente, atravessa uma eterna crise de falta de confiança e não acredita nas Suas infinitas capacidades e omnipotência. Penso que Deus é ateu.

Se assim for, porque haveria eu de acreditar Nele? Talvez fosse mais aceitável Ele acreditar em mim ou num pacote de leite, num iPod ou num político português...não, talvez não fosse muito aceitável Deus acreditar num político português...

segunda-feira, 27 de agosto de 2007

Descendente de uma linhagem crente nos astros e no zodíaco, nasceu num daqueles anos que parecem nunca mais acabar. Pelas contas dos velhos astrólogos, seria já 34 de Dezembro e o novo ano não tinha ainda chegado. Era um ano velho e cansado, sentia-se no ar e demonstrava-o a lentidão com que se sucediam os dias.

Seriam talvez umas 25 horas e 61 minutos; o alinhamento dos astros definiu o seu signo – andorinha com ascendente em pterodáctilo – que indubitavelmente, diziam na altura os velhos astrólogos, auspiciava um futuro extremamente positivo e com grandes sucessos.

Mas aos 7 anos mais parecia uma besta e ainda comia com colher. Todas as tentativas e experiências com garfo e faca haviam sido inúteis revelando resultados verdadeiramente desastrosos.

A família culpava agora o ascendente deste seu descendente dizendo que só assim se explicava o estado primitivo do seu desenvolvimento e do fado ou do destino deixaram de falar, especialmente na hora de jantar.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

"Vai buscar o osso!" Foi atirado para longe e é nosso objectivo buscá-lo. Disso depende a nossa realização pessoal. É assim desde sempre e sempre que cravarmos os dentes no tal osso, outro mais apetecível será atirado antes que o sabor do anterior nos satisfaça.

Alguns de nós têm o faro mais ou menos apurado do que outros condenados a sorte idêntica. Aqueles que depressa encontram o osso, podem crer que apenas vão encontrar mais ossos durante a vida. Os outros encontrarão apenas um osso ou poucos mais. E há casos em que o osso primordial nunca chega a ser encontrado – muito simplesmente porque muitos de nós não têm alma de retriever.

Não é motivo para desespero! Podemos não saber para onde foi atirado nem sequer sentir-lhe o cheiro mas é quase certo que o acaso nos deixará um osso pelo caminho e que o encontraremos...eventualmente.

Não deixem pender a língua, humedeçam regularmente o nariz, mantenham-se bem atentos de olhar fixo no horizonte e continuem a abanar a cauda.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

O Vaticano regressa ao passado e o Latim às missas. Quem quer perceber? Talvez nunca se tenha percebido e por isso pouco muda. A língua pouco importa e por isso aqui ficam três excertos da Santíssima Trindade da Literatura dos nossos dias em língua original:

You cannot separate paranoia from knowledge. The more you know, the more possibilities you see. The more possibilities you see, the more possibilities someone else sees. The more “someones” there are, the more “they” are. It’s a matter of simple math before you realize that They might not like you. (Craig Clevenger, Dermaphoria)

Andy Warhol was wrong. In the future, people won’t be famous for fifteen minutes. No, in the future, everyone will sit next to someone famous for at least fifteen minutes. (Chuck Palahniuk, Rant)

Them supermodels might look great with clothes, but let’s face it: you wouldn’t wanna fuck one of em. Feel like one of them Indian geezers lyin on a bleedin bed of nails. (Irvine Welsh, If You Liked School, You’ll Love Work...)