sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Aqui não é a capital. Aqui é outro mundo. Mais do mesmo? Mais de menos para os demais. Capital é o pecado daqueles que pensam que aqui é a capital. Bastaria apenas abrir os olhos e olhar nos olhos aqueles que não olham e assim não vêem que aqui não é a capital.

Em Milão, durante os últimos anos, aterraram demasiados que por cá estão a mais. Não vêm todos de avião. Mas talvez porque aeroportos nunca sejam a mais, por cá têm três, tantos quantos os que há hoje no continente português.

Não me sinto a mais mas acredito que alguém algum dia se transformará num novo Moisés; receberá de Deus um cajado para guiar o novo povo escravo num novo êxodo em direcção a uma nova terra prometida.

Cinzento era a cor dominante em Milão que agora parece ser apenas preta ou branca. Os contrastes aumentaram e assim morreu a pouca cor que ainda se via nos raros dias de sol. Roma é a capital. SPQR...será por que razão?

domingo, 25 de novembro de 2007

Está tudo no nome. É almejado vê-lo reproduzido e multiplicado, sob luzes mas com uma luz própria que ofusque as demais; que seja único e distinto. E lá vem ele, saído das páginas amarelas, de um calendário religioso ou da cabeça dos pais. Primeiro na pulseira que faz do seu dono o mais bonito de todos os que iguais choram no berçário da maternidade.

Salta para a porta de um quarto em letras grandes e coloridas; é bordado na roupa, para que não haja enganos. Gravado no banco da escola marca território conquistado e permite que se aponte o dedo sem erro.

Escrito pelo dono que com ele se identifica enche folhas brancas com as mesmas letras repetidas até a exaustão ou até que a Bic fique sem tinta. Periodicamente é visto no meio de tantos, mas sempre distinto, seguido de avaliações de nomes bons e nomes maus.

Na vida é como uma sombra ou um espelho. Assinado num cheque para uma compra importante; excelso num diploma que enfeita uma parede relembrando tempos idos. Há quem goste de o ver escrito na porta de um gabinete ou à frente de uma secretária, mas no final vai acabar escrito numa etiqueta pendurada no dedo grande do pé ou a letras douradas no frio mármore fúnebre para que seja esquecido connosco.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Relativamente à relatividade absolutamente nada pode dizer-se que possa considerar-se absoluto. Qualquer juízo está sujeito à subjectividade que lhe confere o sujeito/juiz; este sujeito, sujeito como todos os demais sujeitos, a uma subjectividade intrínseca, nada tem para dizer que possa considerar-se absoluto.

Tudo então é relativamente relativo; sujeito à subjectividade, entenda-se. Julgue-se por exemplo um juízo ajuizado por um ajuizado juíz: é subjectivo, por muito ajuizado que seja o juiz.

Quem pariu a subjectividade? Julgo ter sido o primeiro sujeito, por muito objectivo que fosse. Mas admito juízos diferentes; que se escrevam livros e se encham páginas de juízos ajuizados e distintos.

Hão-de um dia lembrar-se e pintar numa parede quem da subjectividade fez escola e na relatividade encontrou matéria de interesse. E no fim, absolutamente nada terá sido dito que possa considerar-se absoluto.

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Num futuro pouco distante, provavelmente antes mesmo do degelo dos pólos e da saída do Madaíl do comando da Federação Portuguesa de Futebol, o ser humano irá perder os dedos; talvez conserve as mãos, mas no lugar dos dedos terá pinças, lasers e outros instrumentos tecnológicos bem mais actuais e úteis do que polegar, indicador e companhia.

Especialização não é espécie de árvore mas é impossível não ver os seus frutos. E a crer verdade que a necessidade faz o engenho e que a sobrevivência depende da adaptação, falta apenas saber o que faz engenheiros e o que estes fazem.

Sem dedos, o ser humano será produzido em série e absorvido pela máquina social. A identidade de cada um vai morar apenas no nome de baptismo atribuído numa oficina e não numa igreja, usando óleo em vez de água.

O orgulho de cada um medir-se-á pelo feedback e reconhecimento dos demais que partilham sorte idêntica e quando, olhando para o lado, for verificado um menor número de prefixos no nome do outro acessório da máquina social.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Durante a recente estadia na capital húngara, aproveitei para visitar o Szoborpark (Parque das estátuas), também conhecido como Memento Park. Os panfletos de propaganda anunciam este como o local ideal para se observarem os “restos da ditadura comunista”; lá podemos encontrar as estátuas impostas pelo regime comunista e retiradas das ruas após o seu fim.

Dizem não ser um museu sobre o comunismo mas sim sobre a queda do comunismo. Há diferentes formas de nostalgia, de lembrar e de esquecer.

Com foice para abrir a porta do Trabant de plástico e martelo para romper a cortina de ferro, hoje já não é assim porque se come pato em Varsóvia e o vermelho já não é moda.

Pesa o realismo socialista em cada uma daquelas estátuas gigantescas que agora se fazem companhia, sem o mesmo significado de outrora, longe do centro mas ainda assim disponíveis para sessões fotográficas.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Voando alto a baixo custo pelo céu da Europa, da terra média a Budapeste são noventa minutos de alguma turbulência. Mas depois de esperar pelas malas e de as enfiar num taxi magiar que viaja a uma velocidade aproximada à da luz, é impossível ter medo de voar.

O Danúbio não o vi azul mas castanho; saído das margens e arrastando troncos de grandes árvores que às vezes apontavam ao casco dos barcos cheios de turistas e faziam dos cruzeiros no grande rio uma actividade aparentemente emocionante.

De Buda vê-se Peste do outro lado do rio aqui atravessado por nove pontes. No horizonte impõe-se o edifício do parlamento parcialmente em restauro e ladeado por torres de igrejas várias para todo o tipo de crenças.

Nas margens do Danúbio (quando a máquina fotográfica se recusou momentaneamente a exercer a sua função), não me sentei nem chorei mas, e porque nada acontece por acaso, vi Cristo numa escavadora parada nos semáforos. Aleluia.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

O que não falta no nosso mundo são divisões; habitat perfeito para os que, como eu, gostam de discriminar. Podemos então dizer que este mundo se divide entre aqueles que gostam de Coca-Cola e aqueles que gostam de Pepsi, entre aqueles que acham que foi penalty e aqueles que acham que “nem lhe tocou” e, obviamente, entre aqueles que acreditam em Deus e aqueles que são obrigados a acreditar em Deus.

“Que Deus te acompanhe!” é o suficiente para nos apercebermos que é verdadeiramente impossível estar-se um momento sozinho. Bom seria se Ele ajudasse lá por casa; enfim, que abandonasse a confortável e conveniente indiferença que O caracteriza e viesse, de vez em quando, lavar a louça, aspirar o pó ou até mesmo limpar os vidros das janelas. Podia ainda demonstrar alguma gratidão pela devoção incondicional dos mais idosos e ajudá-los a apertar os cordões dos sapatos, descer escadas e fazer-lhes companhia enquanto esperam horas a fio nos centros de saúde.

Nietzsche disse que Deus morreu; eu confesso que não sei. Admito que seja uma entidade suprema, causa de todas as causas, etc., mas, provavelmente, atravessa uma eterna crise de falta de confiança e não acredita nas Suas infinitas capacidades e omnipotência. Penso que Deus é ateu.

Se assim for, porque haveria eu de acreditar Nele? Talvez fosse mais aceitável Ele acreditar em mim ou num pacote de leite, num iPod ou num político português...não, talvez não fosse muito aceitável Deus acreditar num político português...